
Está consumada. Uma barbaridade que nunca julguei possível.
O chipamento da vida dos cidadãos.
Claro que "apenas" nos carros em que se deslocam.
Claro que "só" por motivos utilitários e reactivos a uma insegurança que, como não respeita nada nem niguém, tem resposta pronta e adequada de quem nos "governa".
Claro que é para o nosso bem....
Claro!
O que acontece é que cada vez menos gosto desta sociedade em que vivo.
Cada vez mais me inquieta que esteja a criar um filho inocente - futuro cidadão - para o entregar nas mãos de um monstro silencioso.
E por imperativos de moral e de razão não estar a artilhá-lo com as ferramentas de violência adequadas a responder-lhe, quando velho não me couber já a mim lutar num combate de uma outra dimensão, com a vitalidade que então já não terei.
Há muito que a questão do "divórcio entre cidadãos e os seus governantes" está ultrapassada...
[...O "divórcio" entre os cidadãos e o próprio "sistema democrático" que os rege nunca sequer esteve sobre a mesa, na medida em que ninguém se "divorcia" de algo a que nunca esteve intimamente ligado.]
...Hoje - resultado de um intrincado processo e de uma intrincada manipulação - os cidadãos estão divorciados de si mesmos. Cada qual já não procura saber o que pode fazer pela Nação, mas também já nem lhe interessa saber o que a "Nação" pode fazer por si - exercício penoso de intelecto e civismo a que ninguém se sujeita - cortado em qualquer sentido o cordão umbilical que o ligaria à comunidade dos seus semelhantes.
Hoje, o cidadão divorciado de si mesmo não procura intervir sobre o seu meio, atrofiado na sua iniciativa.
Não procura intervir sobre a quem, de forma diferida, poderia caberia essa intervenção, atrofiado na sua voz.
Hoje, o cidadão constitui o isolamento a sua forma de integração social.
[Que ainda que conducente à sua fragilidade e ao seu - inevitável - desespero, tanto o seduz pela ociosidade como lhe surge difuso na anestesia pop do mediatismo e do consumo.]
E, desenraizado, perde os seus referenciais. O seu contexto, a sua identidade e o seu auto-respeito.
Perde a noção de uma origem e de um futuro colectivos - cuja alusão o enchem de um espanto genuíno e de uma indiferença exuberante, nascidos da ignorância, da inconsciência e do orgulho.
Perde o sentido da sua existência.
E está pronto para a ceifa.
Quando o Presidente da República promulga o decreto-lei que permitirá a instalação de chips (...não, não são batatas!) em todos os veículos motorizados, sob pretextos de "facilitar o trabalho das forças de segurança, que terão acesso à informação sobre inspecção periódica e seguro automóvel", "permitir o reconhecimento de veículos acidentados e abandonados" e "ser utilizado na cobrança de portagens e outras taxas rodoviárias", "entende que as dúvidas relativas à reserva da intimidade da vida privada podem ser resolvidas pelo Governo".
Ora, tanto os motivos alegados estão pela insignificância cobertos de ridículo, como o laçarote formal dado à ameaça da privacidade dos cidadãos acrescenta à estupefacção toda a repulsa possível.
Para a sua vigilância.
Para a sua indexação.
Para o seu arquivamento metódico.
Para a sua consulta cirúrgica.
Nem motivo plausível, nem justificação aceitável.
Só numa Nação em que mais por folclore que por convicção se desfraldam os pendões da luta democrática, se admite que se venda em hasta a liberdade de agir do cidadão.
...Porque é dela que se trata!
Se alguém não é livre no resguardo dos seus movimentos, é coarctado neles.
E quando a segurança dos cidadãos é prometida às mãos - não só dos políticos, mas - de um "Governo" que nasceu e vive sob o signo da manipulação, todo o alarme social seria justificado...
...Não fosse já o alarme social o último ingrediente necessário ao caldo da desarticulação da cidadania.
Cidadãos entorpecidos, superficiais e impotentes, não necessitam senão de um empurrão para que aos seus olhos qualquer fórmula manhosa de salvamento seja providencial.
"A criminalidade crescente requer actos radicais."
[Aterrorizar/controlar. Enfraquecer/dominar.]
Primeiro, sob o olhar de uma câmara indiscreta, omnipresente, em circuito fechado paternal sobre o homem...
...Depois, sob uma mesma câmara, fria e penetrante, cerrado no abraço esmagador de um círculo fechado sem apelo.
("Tal e qual como nos States..." - Pela boca tantos morrem...)
Tal como no livro de Orwell.
Mas contra a probabilidade, parece ter aparecido quem ouvisse a notícia.
Quem se pusesse a pensar e tirasse conclusão.
Parece que até houve mesmo alguém com opinião. E que ousou partilhá-la.
E que na largura da net chamou outros a fazê-lo.
...E que de novo mostrou que isso é fácil e é fértil.
Não fui eu, mas aderi. Porque o medo e a revolta também os transporto em mim.
Por mim, por quem passa a meu lado, por aqueles que me seguem e pelos que hão-de vir...
Porque o desgosto galopante de viver no idiotismo também me revolta as entranhas!
Por continuar a crer que a corja que nos apouca nada pode contra nós.
Queiramos. Façamos. Ousemos.
E ser livre pode ser já.
29/08/08
Idiotas Chipados
26/08/08
Dezanove Séculos Vos Contemplam
Para os lados da Turquia ocorreu um achado arqueológico.
Quando no fim deste mês arqueólogos resgatavam à terra a antiga cidade soterrada de Sagalassos, destruída por um terramoto por volta do século VI da Era de Cristo, depararam com o antigo lugar de uns banhosa públicos e neles com uma grandiosa estátua...
...Do imperador Marco Aurélio.
Marcus Aurelius Antoninus Augustus; 26 de Abril de 121 a 17 de março de 180.
Já lhe fiz alusão, em certo post. Imperador, homem, filósofo, autor...
Uma figura relevante na História da Humanidade.
Que agora nos revisita.
E não posso deixar de sentir profundamente que esta chegada acontece inesperada.
Sem aviso, sem preparação, sem sentido.
Quando, dezanove séculos depois, a imagem de Marco Aurélio ressurge do ventre da terra, que contas podemos nós prestar-lhe?
[A ele ou a qualquer outro homem que, não tendo conseguido vencer a lei do tempo, nos tenha deixado a sua presença, as suas palavras, as suas ideias, o seu ensinamento...]
Em que aproveitámos nós, durante dezanove séculos, o caminho de consciência e dever que desbravou?
Em que transformámos nós, hipócritas civilizados e higiénicos, o seu sólido ancoradouro moral? Humano, familiar, social, político...
Muitas vezes regresso à leitura dos Pensamentos de Marco Aurélio.
À sua serenidade, à sua simplicidade, à proposta da plenitude possível numa vida passageira.
Tão diferentes na dignidade das fórmulas de pacotilha para uma vida alegre, que nos sitiam.
Tão diferentes em humildade das sentenças sobre passado e futuro dos pensadores distróficos que nos acossam.
Tão diferentes em generosidade das ideologias informais que cegam os nossos olhos e nos levam titeritados...
...Dezanove séculos depois, tão esmagadoramente intemporais.
Para quem por aqui passe - invariavelmente uma pessoa de quem eu gosto - uma prenda.
Não "de mim". Mas, irrompendo gloriosa de uma pesada terra impotente, da voz de um homem são.
Guia de bolso condensado para consultar avulso, a gosto, a tempo.
Objectivos de Vida
"Não te deixes distrair com os incidentes que te chegam de fora.
Reserva-te um tempo livre para aprender qualquer coisa de bom e deixa-te de vaguear sem rumo. Já é tempo de te guardares duma vida de errância.
Bem loucos, com efeito, são aqueles que, por serem intriguistas, sentem o cansaço da vida e não têm um fim a que dirijam os seus esforços e, para o dizer de uma vez, as suas ideias."
A Força do Presente
"Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde.
Assim, a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos e o que se perde é, por isso mesmo, igual.
O que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?
Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos e pouco importa assistir ao mesmo espectáculo duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem."
O Controle do Suportável
"Tudo o que acontece, acontece de forma que naturalmente o podes suportar ou naturalmente o não podes suportar.
Se é coisa que naturalmente és capaz de suportar, não protestes, senão mais depressa deitarás tudo por terra.
Lembra-te, todavia, que és naturalmente capaz de suportar tudo o que de ti depende tornar suportável e tolerável; basta que consideres que é o teu interesse ou o teu dever impor-te esse trabalho."
Serenidade da Alma
"Chamas infortúnio para o ser humano aquilo que não é um obstáculo à sua natureza?
Que queres? Aquilo que te sucede impede-te, por acaso, de ser justo, magnânimo, sóbrio, reflectido, prudente, sincero, modesto, livre, e de possuir as outras virtudes cuja posse assegura à natureza do ser humano a felicidade que lhe é própria?
Não te esqueças doravante, contra tudo aquilo que te possa trazer aflição, de recorrer a este princípio: «Acontecer-me isso não é uma desgraça; suportá-lo corajosamente é uma felicidade»."
Viver Sempre Perfeitamente Feliz
"Viver sempre perfeitamente feliz.
A nossa alma tem em si mesma esse poder, de ficar indiferente perante as coisas indiferentes. Ficará indiferente se considerar cada uma delas analiticamente e em bloco, lembrando-se que nenhuma nos impõe opinião a seu respeito nem nos vem solicitar; os objectos estão aí imóveis e somos nós que formamos os nossos juízos sobre eles e os entalhamos, por dizê-lo assim, em nós mesmos; e está em nosso poder não os gravar e, se eles se insinuam nalgum cantinho da alma, apagá-los de repente."
As Coisas Humanas São Efémeras E Sem Valor
"Pensa de contínuo em quantos médicos morreram, eles que tinham tanta vez carregado o sobrolho à cabeceira dos seus doentes; quantos astrólogos que julgaram maravilhar os outros predizendo-lhes a morte; quantos filósofos após uma infinidade de ásperas disputas sobre a morte e a imortalidade; quantos príncipes depois de terem dado a morte a tanta gente; quantos tiranos que, como se fossem imortais, abusaram, com uma arrogância nunca vista, do poder, a ponto de atentarem contra a vida humana. Quantas cidades, se assim podemos dizer, morreram de raiz: Heliqué, Pompeia, Herculano, e outras que não têm conto! Enumera agora, um após outro todos aqueles que conheceste. Este, depois de prestar os últimos serviços àquele, foi posto de pés juntos no leito fúnebre por um terceiro a quem também chegou a sua vez.
E em tão pouco espaço de tempo! Em suma, as coisas humanas é considerá-las como efémeras e sem valor: ontem, um pouco de greda; amanhã, múmia e um punhado de cinzas. Esta minúscula duração vive-a em sintonia com a natureza e chega ao fim com a alma contente: como a azeitona madura que tombasse abençoando a terra que a criou e dando graças à árvore que a deixou crescer."
O Retiro da Alma
"Há quem procure lugares de retiro no campo, na praia, na montanha; e acontece-te também desejar estas coisas em grau subido.
Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos.
Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de ruídos, que na alma, sobretudo quando se tem dentro dela aqueles bens sobre que basta inclinar-se para que logo se recobre toda a liberdade de espírito, e por liberdade de espírito, outra coisa não quero dizer que o estado de uma alma bem ordenada.
Assegura-te constantemente um tal retiro e renova-te nele. Nele encontrarás essas máximas concisas e essenciais; que uma vez encontradas dissolverão o tédio e logo te hão-de restituir, curado de irritações, ao ambiente a que regressas."
A Fidelidade a Nós Próprios
"De certo modo, o homem é um ser que nos está intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suportá-lo.
Mas desde que alguns deles me impeçam de praticar os actos que estão em relação íntima comigo mesmo, o homem passa à categoria dos seres que me são indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz.
É certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espontâneo, as minhas disposições interiores não conhecem entraves, graças ao poder de agir sob desígnio e de derrubar os obstáculos. Com efeito, a inteligência derruba e põe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obstáculo à sua actividade. O que lhe embaraçava a acção favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir."
"O homem comum é exigente com os outros; o homem superior é exigente consigo mesmo."
08/08/08
A Grande Festa
Estou a assistir em directo à grande festa da inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim.
Os gritos, o caos, o banho de sangue, a complexa coreografia da fuga à tortura por exercer o direito à palavra ou ao acto, a mentira, a hipocrisia do palco internacional.
Impressionante.
Um espectáculo de uma magnificência e de uma originalidade dignas em retrato da nação que o produziu.


Não me digam que não estão a ver...
Ou pelo menos no mesmo canal...
20/07/08
Se Querem Que Eu Vos Conte
Querem que eu conte?
Tem sido bem divertido ver aparecer na boca dos génios do pensamento as palavras "Quinta da Fonte".
Divertido. Surrealista.
Quando a Fernanda Câncio - sim, essa - fala da Fonte, ponho-me eu a pensar: "Ah, pois, ela sabe do que fala, que a sua santa avozinha morava lá num T2."
Ou o António Vitorino - "Ah, sim, a caminho das Assembleias Gerais do Santander-Totta é vê-lo a beber mines no Café Mourão."
Ou o Marcelo Rebelo de Sousa. Que como qualquer mortal também tem Google Earth em casa, o que lhe dá alguma noção de para que lado é que a Fonte fica.
Eu sei um pouco do que falo.
Eu sei onde é e o que é a Quinta da Fonte.
...Eu, o Geolouco, a MaisDia, o Jaime, a Loba, a AbelhaMaia, a I.R., o F.F. e tantos outros compadres a quem por razões que nós sabemos tiro o meu chapéu.
Já passei três vezes pela E.B. 2,3 do Alto do Moinho e uma pela famosa - e até polémica -E.B. 2,3 da Apelação.
O que me fez ir ao baú repescar o Projecto Educativo da E.B. 2,3 da Apelação, cuja elaboração coordenei em 2000, com base na informação oficial disponível à altura.
Dizia então o Projecto Educativo, na "Caracterização do Meio Escolar"...
«A FREGUESIA DA APELAÇÃO:
O nome “Apelação” parece ter a sua origem numa peste ocorrida há vários séculos em Lisboa e arredores. A população veio refugiar-se neste lugar, que não estava afectado, “apellando” à protecção de Nª Sr.ª da Encarnação. Passou a freguesia em 1594. [...]
Em 1991, segundo o censo efectuado, tinha 3419 habitantes. Com base na actualização dos cadernos eleitorais de 1998, calcula-se que a população da Freguesia seja de 9000 habitantes, tendo já em atenção os novos realojamentos da Quinta da Fonte. A Freguesia da Apelação tem uma elevada densidade populacional, sendo superior à média do Concelho, [...] com forte grau de urbanização. [...]
Praticamente não há população a trabalhar no sector primário, no entanto o sector secundário ocupa 51,6% e o terciário 46,9%. Predominam os operários industriais, tendo grande peso os indiferenciados – as actividades ligadas aos serviços pessoais e domésticos absorvem um grande número de postos de trabalho.
OS BAIRROS DA APELAÇÃO[...]
O BAIRRO DA QUINTA DA FONTE
A Urbanização da Quinta da Fonte é um empreendimento composto por um total de 776 fogos, destinados a realojamento. Pertencendo a maioria dos fogos à Câmara Municipal de Loures.
Metade dos residentes são provenientes da freguesia do Prior Velho, do Bairro Tete e da Quinta da Serra. 20% são provenientes da Quinta do Carmo, Freguesia da Portela. Os restantes 30% provêm de outras freguesias. Consequentemente, verifica-se uma grande diversidade socio-geográfica da população residente.
Há que considerar também uma grande diferenciação etnico-cultural que, segundo estudos feitos pela C.M.L., apontam para uma presença de 40% de famílias de etnia africana, 39% de famílias de etnia cigana e 21% de etnia branca. Numa análise por nacionalidade dos indivíduos residentes, predomina a nacionalidade portuguesa (71%), embora coabite com diferentes outras: cabo-verdiana, guineense, são-tomeense.
Segundo os mesmos estudos, a população idosa representa apenas 4% do total de indivíduos e 79% da população tem até 34 anos.
É de salientar que se verificam baixos escalões de rendimento, nomeadamente devido ao fraco grau de escolaridade, às baixas qualificações profissionais, ao desemprego e vínculo laboral precário. Numa análise por agregado familiar, o escalão de rendimento mais representativo é o de 55.000$ - 100.000$00. [...]
A população activa desenvolve a sua actividade profissional na venda ambulante (maioria), na construção civil e em actividades ligadas a serviços domésticos e de limpeza.»

Pude dizer no outro dia, no Fórum TSF, que antes de tudo há na discussão superficial da Fonte muita contaminação por asneira (talvez deliberada).
1º - "Esta foi uma rixa pontual. Apesar das tensões vividas no bairro, este é um cenário atípico."
Não, não é. Sei-o e afirmo-o. E mesmo quem fingisse que não o saber não poderia iludir notícias como as de Março do ano passado, com "carros incendiados e tiros disparados" na Fonte, por "jovens", durante a noite.
2º - "Estes foram desacatos provocados por desavenças entre vizinhos, que como problemas pessoais não podem confundir-se com choques rácicos."
De facto não podem. Mas porque os conflitos raciais descambam em tiroteio e as "desavenças" acabam como há algum tempo atrás com uma larga saída da urbanização de ciganos desavindos entre si.
3º - "Os moradores da Fonte são vítimas da sociedade."
Em certa medida. Apenas.
O realojamento destes moradores foi feito em condições sociais a muitos títulos condenáveis. Mas não é menos verdade que foram - em grande parte - resgatados da miséria sanitária da vida que levavam em bairros de lata.
Atingido por estes um patamar de condições básicas de vida, competia-lhes - bem entendido, aos que nunca o fizeram - lutar pela fuga a uma dependência crónica dos rendimentos garantidos que eu pago (90% desta população, avançaram os jornais).
A actividade da(s) "venda(s) ambulante(s)" de ciganos não os auto-qualifica para exigir o que alguns moradores esforçados e honrados (ciganos ou não) exigem ao poder tutelar.
A importação a grosso de famílias africanas - com a conivência de um Estado relapso - até ao vigésimo grau de parentesco, para fogos e urbanizações que não expandem, não revela qualquer capacidade da parte deste grupo social de conceber para si mesmo um plano integrador na sociedade com condições mínimas de bem-estar.
...E miúdos que vão à escola receber a única refeição decente do dia, apenas senhas para o passe, o apoio financeiro da Acção Escolar, uma palavra de conforto, o conselho básico de higiene, são factos diários que competiria a estes grupos acautelar.
Dar o peixe e a cana e pôr a mesa e pré-mastigá-lo e vê-lo ficar na borda do prato? É demais.
4º - "O poder político tem estado atento ao isolamento social."
Em situações destas apenas releva se o problema está resolvido ou não.
Se em Loures o Presidente da Câmara foi politicamente colhido pela situação como que por um touro, também merece o que lhe acontecer. Dizer que lhe tem dado "atenção muito especial" é não dizer nada. Confessar-se "convencido que alguns problemas que surgiram no início do realojamento dos habitantes da Quinta da Fonte estavam solucionados" é invocar uma inadmissível ignorância. Recordar que "há pouco tempo numa festa na Quinta da Fonte [...] tudo estava tranquilo e pacífico" é de uma pobreza demolidora.
Se o Presidente da República vai à Apelação para as fotos e para as palmas validar a mudança da realidade, é ele que leva os tiros que só resvalam nele pela baixíssima qualidade da nossa imprensa. A intervenção dos jovens é fulcral, mas "têm conseguido melhorar o ambiente na freguesia e no bairro da Quinta da Fonte"? Dependerá deles? E que prtessão tem feito o PR para provocar respostas eficazes?
Se o ex-PR Jorge Sampaio diz com o descaramento superior de um Presidente da Aliança para as Civilizações da ONU que "os eventos ocorridos neste bairro não surpreendem pelos problemas que se vêem há alguns anos relacionados com habitação, escolaridade, segurança social e apoio social e profissional destas pessoas", importa confrontá-lo com os dois mandatos na Presidência e a mesma questão que se coloca a Cavaco Silva.
E sobre as culpas dos Governos sucessivos?, e sobre as deste "Governo"... tanto haveria a dizer.
Como sempre todos são vítimas e ninguém é culpado de nada.
Como sempre a "informação" é espectáculo, mais que responsabilidade. E as tretas derrubam qualquer resistência - dizia a Governadora Civil de Lisboa "Será dado tempo às partes para se acalmarem"...
Como sempre a Natureza se encarregará de encontrar uma solução.
neste caso como a do organismo preponderante englutir um menor.
Não quer dizer é que vamos no caminho certo.
Ou em qualquer caminho que seja.
Apenas o de deixar a Natureza englutir grupo a grupo entre si, até à aniquilação total.
Única coisa que cinicamente se aproveita: a bofetada àqueles que maquinalmente apelidam tudo e todos de "racista" por mera expressão de opinião franca.
Esses andam caladinhos, depois do deboche verbal dos últimos dias trocado entre "os ciganos" e "os pretos".
A este assunto, ainda se há-de voltar.
Por força das circunstâncias.

16/07/08
Em Exame - O Resgate da Tropa Fandanga
(...Sim, Ainda...)
O meu e o nosso.
E as ideias e os factos rodopiam numa órbita que - se estivéssemos totalmente despertos - nos serviriam de bandeja o confronto e o contraste entre todas as coisas que passaram e todas as que acabarão por vir.
"Exames Nacionais do Ensino Básico?"
"O Resgate do Soldado Ryan!"
O resgate para a segurança do lar de um jovem soldado, James Ryan, que o Estado Maior Americano decide devolver aos braços da dolorosa mãe...
...Que perdera sucessivos, na torcionária Guerra Mundial, os seus outros três filhos.

Como se conciliam na cabeça de homens comuns o propósito violento e glorioso de desembarcar na Europa Continental para derrubar o exército nazi e o propósito benévolo e banal de correr a paisagem francesa à procura de um homem para salvá-lo?
Como se conciliam na cabeça de homens comuns a salvação imperiosa da vida de um homem e o risco da vida de todos os outros oito que o procuram?
- Tensões de um grande argumento. -
"Exames Nacionais do Ensino Básico!"
Segundo o Ministério, todos os dias nesta terra de Deus 170.000 professores abordam as costas da Educação em "higgins" apinhados, tensos e inquietos, numa moderna Normandia.
...Com o equipamento e o treino considerados adequados, adivinham que nem um nem outro garantem o sucesso da sua perigosa missão, aguardando nas frágeis barcaças oscilantes que rasgam o espaço o sinal do desembarque e do confronto...
Cada professor, inseguro, impotente, vulnerável, expectante, obriga-se a confiar a sua vida aos camaradas de armas - que sabe poderem falhar sob a pressão, sob o cansaço, sob o medo, como ele próprio - e numa Providência abstracta cujas regras dificilmente entende, única entidade que pode no último momento poupá-lo ao holocausto.
Todos os dias mais de 170.000 professores galgam em corrida e adrenalina os passadiços tombados sobre a água baixa das praias da Educação.
...Na esperança infundada e inconsciente de ganhar ali a batalha que lhe cabe - e outra, e outra, que se lhe seguirão - de uma Guerra Total em que se joga a Nação, em que se joga o futuro, mas que sente que depende menos de si que de estratégias traçadas na segurança de uma qualquer secretária no conforto de um qualquer gabinete.
Atirador furtivo do batalhão de Miller, homem de fé e alma de filósofo.
Mas não percebe como pode qualquer Força Superior colocá-lo logicamente e ao seu dom natural no local mais improvável para o aplicar.
Numa situação em que aquele aparentemente se torne mais banal e inútil.
"Como seria diferente se o seu dedo certeiro pudesse premir o gatilho infalível não em plena paisagem campestre do litoral de França mas em Berlim, na direcção de um Hitler cuja morte, num segundo, ditaria o fim da Guerra e o reinício da História..."
Este diálogo, é tido em grupo. Em marcha. À laia de um discurso peripatético numa academia grega.
Sobretudo entre Jackson e o capitão Miller. Que numa deliciosa coincidência - e para estupefacção dos seus homens e do público - era... professor na sua anterior vida civil.
Jackson expande o seu raciocínio sobre o absurdo que une aqueles homens, numa sequência absurda também ela mas enternecedora.
Em que parece que Miller regressou à sua sala de aula, com aqueles homens ferozes-por-fora pela mão.
Pedindo-lhes uma opinião que adivinha paciente que não será a mais acertada, reforçando Jackson a desenvolver o seu pensamento, observando a correcção da exposição, chamando todos os camaradas a contrapor, e os mais incrédulos à partilha da aprendizagem daquele momento...
Superior, cúmplice, humano.
Quando os professores portugueses partem para missões absurdas diárias como os Exames Nacionais, fazem-no como missão. Que não contestam. Que cumprem.
Como sempre.
E pagam-se da simples felicidade do regressar...
Sujeitos ao risco e à solidão.
À incerteza e à frustração.
Sentem que excluídos das razões de quem ordena não são mais que um utensílio. Meio para um fim misterioso.
Que são carne para canhão. Matéria-prima à pazada numa prensa ou num caldeiro, revolvida e requentada.
Sentem que valem mais que isso.
Que são um recurso apoucado. Que por estupidez ou maldade se mantém subnutrido.
...Conscientes de ser pilares de uma força poderosa que sustenta o bem comum.
Há os que chegam. Os que vão. Uns que se perdem. Os que tombam.
Como em campo de batalha.
Uns dias Jackson - lúcidos e inconformados - outros Miller - serenos e repetindo-se que têm de segurar responsáveis os fiapos de uma manta que não o é.
A Educação.
E a paz?
Com uma curiosidade: os professores portugueses, devido à humidade atlântica, esquecem-se muito amiúde que estão no meio da guerra.
O que frequentemente é fatal.
Para si e para quem está à volta.

08/07/08
Em Exame - Bonecadas
E com esse fim cessou a minha empresa na Classificação das Provas de Português.
Foi uma experiência muito enriquecedora, que não me importaria de contar.
Mas, como em qualquer caso, há histórias que valem a pena contar e outras que não.
Opto por isso por não contar a minha, totalmente banal, mas da maneira possível contar outra, muito mais ilustrativa.
A história de alguém que a viveu e a narrou a alguém, que a comentou com um vizinho, que a ela aludiu em conversa de café, que alguém confessou emprestada ao padre no Domingo passado como enchimento de fronha para evitar falar das suas faltas, que por sua vez foi ouvida por uma prima minha muito beata e muito cusca, que tão detalhadamente quanto possível ma tentou contar e que assim aqui chega...
Certo dia um professor de Língua Portuguesa, Belmiro, foi chamado para corrigir Exames de 9º ano: ser Classificador.
Teve de ir a uma "Unidade de Aferição" pré-definida integrar um alegre grupo reunido para uma pena comum. Em fase de ressaca do Ano Lectivo corrigir com minúcia de relojoeiro mais umas dezenas valentes de provas.
Sentaram-no e fizeram-no sentir-se à-vontade. Entre pares. Entre iguais. À volta dos papéis.
...Sem necessidade de lhe pedir um BI ou qualquer prova de que ele era ele e não o seu irmão gémeo, o Almiro, tal a sua cara era de professor, de se chamar Belmiro e de merecer na mão a confiança de um envelope cheio de documentos insubstituíveis.
Foi-lhe dito para intróito que pouco interessava o que ele pensasse no decurso da classificação porque os Critérios eram os do Ministério da Educação e seriam sempre estes a valer.
Ele agradeceu. Bem visto, também ninguém lhe pagava para pensar...
E, a seguir, que se tivesse dúvidas devia esclarecê-las com o seu Supervisor. Em caso nenhum deveria contactar o GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional).
Deveria aproveitar o facto de ter ao seu dispor uma pessoa com superpoderes e tirar partido da sua supervisão.
E agradeceu de novo. (Mais tarde, sentindo-se desnorteado pela supervisão do seu supervisor, tentou contactar alguém fora da esfera de cristal e acabou por confirmar que no GAVE não havia mesmo ninguém disposto a ouvi-lo.)
(Apesar de o seu supervisor o ter inicialmente informado de que teria mais um dia que aqueles e de saber que outros grupos a funcionar noutros lados iriam dispor de mais três.)
...E que a segunda reunião, para "concertar divergências" através de exercícios de "dupla classificação", seria na véspera da data de entrega - quando, tudo correndo bem, já deveriam os exames estar todos mais que classificados, passados a tinta, apagados de anotações e prontos para entregar na manhã seguinte.
Puseram-lhe então à frente os Critérios de Classificação do Ministério.
Que o surpreenderam.
Ficou a saber que, como medida de combate à resposta aleatória por parte dos examinandos, no Item 1 do Grupo I - "Item de resposta fechada de verdadeiro ou falso" - o Ministério previra classificação de 0 pontos caso o aluno indicasse as afirmações como todas "verdadeiras" ou todas "falsas" (pág.2).
...Com a curiosidade de o enunciado da prova não informar os seus realizadores de que essas hipóteses não só estavam fora de questão como acarretariam a anulação da resposta para efeitos de classificação.
Ficou a saber que em cinco das questões da Prova - "Itens de resposta aberta" - havia a calcular o "peso percentual ponderado" da "correcção linguística" da resposta dos alunos no total da cotação prevista, numa razão nunca superior a "40%" (pág.3).
...Mas que em duas delas não era possível através desse cálculo atribuir a nenhum aluno cotação máxima à "correcção linguística" - 2 pontos - uma vez que tal prefaria irregularmente 50% do total previsto para a questão - 4 pontos (pág.6)!
...Ainda que a grelha digital em Excel fornecida pelo Ministério - e a entregar preenchida no final da tarefa do classificador - surpreendentemente o permitisse sem problemas...
...Sendo que sempre o classificador estaria a matar a cabeça com ponderações de "correcção linguística" que para o Ministério representavam uns ridículos 12% da cotação total da Prova.
E ficou a saber também que no Grupo III, de "Resposta aberta de transformação", em que se pedia ao jovem "um texto narrativo" sobre "o valor do sorriso" ora era admissível que ele apenas desse resposta a uma das exigências, ora não.
Enquanto nos "Critérios Gerais" (pág.4) se determinava uma "classificação com zero pontos" para uma resposta que não respeitasse a "tipologia" e a "temática" indicadas, os "Critérios Específicos" (pág.12) mandavam atribuir 3 pontos a uma resposta se ela cumprisse "globalmente uma das instruções" - algo do género: "um texto narrativo" sobre o Capuchinho Vermelho ou um soneto sobre "o valor do sorriso" - aceitando-a para classificação nos restantes parâmetros.
...Mas Critérios de Correcção entregues... eram Critérios de Correcção aplicados.
Ponto final. E bico calado.
...Que é isto que faz de nós uns homens. (Ou não; dependendo do género de partida.)
(Admito que o entusiasmo de contar pormenores possa torná-los redundantes, uma vez que qualquer pessoa curiosa já recolheu esta mesma informação na consulta livre on-line do rol de documentos públicos na base desta narrativa...
Mas peço condescendência. Tenho de lhe dar o colorido do relato...)
Seguiram-se serões inteiros no lar, em redor das Provas...
Primeiro, com o professor Belmiro a trancar a vermelho - com canetas que ele comprou - as mais de 6.000 linhas de folhas de prova preenchidas pelos alunos.
Depois, a contar nas provas que lhe calharam, uma por uma, pica-pica, as mais de 11.000 palavras das respostas dos jovens aos Itens I-8 e III, para apurar se descontaria (ridiculamente) - no conjunto! - o máximo de 3 pontos em 100, por desvios às extensões de texto pedidas (págs.9 e 13)...
...A que se sucedeu o clímax-intelectual-em-maratona da classificação das dezenas de provas recebidas.
Realizadas por desgraçados de miúdos com o fusível já semi-queimado, com um pé em férias e bem conscientes de que o Exame - o de Língua Portuguesa como o de Matemática - para o bem ou para o mal apenas impactaria na sua nota se o resultado nele obtido tivesse uma diferença de dois pontos da nota atribuída na frequência à disciplina...

Também eu estou à espera que a minha prima me conte o resto, para saber como acaba.
Ontem estávamos a falar e acho que ficou sem saldo ou assim...
Paciência.
Mas apesar de tudo estou-lhe muito grato.
Graças a ela pude contar uma história sobre Exames Nacionais. Um tema do meu carinho.
Porque vendo as coisas como elas são nunca poderia contar a minha própria história: a Norma 2, no ponto 47.2, alínea a), obriga-me a "manter sigilo em relação a todo o processo de classificação das provas de exame", o que me cortava a pernas...
(Nosso Senhor faz as coisas muito bem feitas.)
Abençoada prima!
É para isto que serve a família.
04/07/08
Para a Tralha Cavaquista, Daqui Vai...
...Um Sentido Pontapé!
Saiu para os escaparates um rolo de papel de folha simples sobre o percurso do político e do Homem que se fartou de bulir para cá chegar. (Confira-se o site da FNAC.)
"Cá", à política, a Lisboa, ao sucesso, ao Governo, ao zénite do superior pensamento da Nação.
(Coitadinho, o que ele moirou para vingar desfavorecido na Beira..., o que ele batalhou para singrar sozinho na esfera do PS da metrópole..., o que ele suou para se formar no académico que é hoje..., o esforço que foi arrancar o seu poder actual às mãos aferrolhadas de Santana Lopes..., os tormentos que passa ainda agora, coitadinho, com uma imprensa tão atenta, isenta e agressiva...
Coitadinho...)
Por isso, para tal alma tudo é pouco.
Coube o frete..., isto é, a distinção, à sub-directora da Antena1, a jornalista Eduarda Maio, de quem até gosto.
...Que mais ou menos nos termos que se esperava explicou - em longos seis minutos - à RTP (!!!) o processo de postura da obra.
Como as dez horas de entrevista com o protagonista da "biografia não autorizada".
Como a extenuante pesquisa sobre a longa vida de salientes concretizações do "Menino de Ouro do PS" - termo da autoria de terceiros e que por isso não compromete a imparcial e inócua obra literária!
Mas ainda que triste, não é esta a parte mais lamentável.
Foram mais reveladores os próprios detalhes do parto do opúsculo.
Numa comovente cena de Natividade, vieram reunir-se em redor do Menino (de Oiro) os Reis Magos da nata VIP que pelas heterogéneas razões que lá saberão trouxeram os incensos e as mirras que lançaram na farta molhada das oferendas da circunstância.
Um deles: Dias Loureiro.
(...É difícil conciliar o reconhecimento da liberdade individual e universal de falar e agir de cada um com a censura e o asco que me sufocam e se me moldam em palavras... mas paciência.)
Cada vez mais me ocorre a expressão usada por Vicente Jorge Silva - então recém-convertido à rosa - quando um dia julgou (e bem) ver regressar à política, depois do flop, o cortejo inevitável dos que apelidou de "tralha guterrista".
...Ocorre-me a expressão, adaptada pelos tempos para a "tralha cavaquista".
Cada vez mais o aluvião do Rio Cavaco se revela um espessante poderoso do caldo barrento em que involuntariamente nadamos.
Cada novo rosto laranja que se reencontra, cada nova individualidade que sobressai e reforça posição no laranjal ou no Nacional Rectângulo, uma velha memória comum de colaboração política no Governo de um Cavaco-Primeiro; hoje um Cavaco-Sombra mais abrangente e tentacular que o que o seu magistério prevê, do que a sua amorfa prática sugere.
Cavaco Silva, o magnificamente sereno Presidente da República, monarca de cognome "O Inútil" (esta paga direitos ao Kaos), o "Cooperante Estratégico" com a farsa governativa, ainda assim não dorme.
E segundo um plano antigo e abrangente, os seus tentáculos penetram na sociedade influenciando-a, controlando-a, manietando-a.
Dir-me-á alguém que sempre assim foi e sempre assim será...
Que o polvo soarista ainda aí está para lavar e durar. Que o sampaísta idem. Que o "-ista" agarrado a este ou agrafado àquele - fremente, sôfrego, subalterno, parasita - é uma fatalidade da política e da sociedade...
Seja-o.
Mas que não seja menor a inevitabilidade de o denunciar, quem o ache o insulto e a perversão que configura.
Porque não façamos confusões.
Cavaco Silva foi o maior Primeiro-Ministro que este País já teve. E sem parecenças de vir a perder o galardão para qualquer outro nas próximas décadas.
E a quem a razão não se encontre politicamente toldada, aconselha-se a leitura do laudatório "As Reformas da Década", onde os mais esquecidos poderão sempre recordar o percurso de um Portugal-Cavaco - saído de 40 anos de subdesenvolvimento e mais dez de bagunça revolucionária de plantar de estaca - que se actualizou, modernizou e dignificou perante si mesmo.


Cavaco, afinal, tinha "uma agenda". Sua.
Um plano. Para si.
Um projecto e um propósito individuais de alcance duvidoso.
Tendo sido a corrida à Presidência a evidenciá-lo. Ao colocar-se acima e além de tudo.
Disse que Sócrates "faz bem ao País", pelo seu optimismo.
Disse que Sócrates "emociona" pelo "lado dos afectos", pelo "amor pela sua terra", pelos "valores que o amarram à vida". Disse da sua "enorme generosidade", "sensatez e prudência". Das suas qualidades de "coragem" de "homem trabalhador".
Disse que Sócrates, "tal como Tony Blair" "é infatigável". Que com a sua "coragem", "capacidade de liderança" e "capacidade estratégica" está "muito longe de estar acabado"...
...E eu sinto, em partes iguais, desnorte e vergonha.
E se aparecem umas aves raras - por exemplo Paulo Teixeira Pinto (lá estão eles...) - a dizer coisas tão convenientes como que a «dicotomia “nós” e “eles” [é] "péssima" para o país», porque "cria descrédito" e "ajuda a minar o apoio social que as políticas possam ter", é um pouco mais que suspeito.
Enquadra-se no estilo-neutro da Presidência, no estilo-suave da oposição laranja, no estilo-morto do espírito crítico dos moradores da Nação.
Que os pequenos partidos políticos apenas esperam para a sua sobrevivência ou um lugar à mesa grande ou que o circo pegue fogo de vez para correrem de baldinho, seria giro ver assumir...
Até lá, não me gozem. Não me insultem.
E se as tralhas partidárias se afastarem demasiado da realidade do País, estará na hora de uma reacção do País e dos Portugueses. De uma mudança.
Por isso, do fundo do meu coração laranja, para a tralha cavaquista, daqui vai... um sentido pontapé!...






























