
405 posts depois, abandono o Blogger.
Dois anos e três meses depois...
...E tenho pena.
É ser parvo, apegarmo-nos a coisas tão ridículas quanto o paradoxo conceptual de um espaço na net.
[Um blog não existe! Basicamente é uma pilha de teclas batidas armazenada num servidor americano!]
Mas convençam-me disso, tantas e tantas horas volvidas - de falta de sono, de falta de contacto, de falta de realidade - neste quarto de brincar, mergulhado em informação, inventando bonecos, esculpindo ideias, destilando palavras arrumadas por ordem, a lê-las, a relê-las, a apagá-las, a repeti-las, até obter uma coisa que vagamente previa, um berloque desejado para pendurar nesta montra de humilde loja de bairro...
Devemos ser gratos à terra de onde brotamos.
...Talvez seja só por isso.
Aqui comecei a blogar.
(Que a minha geração foi parteira do blogar mas teve que o aprender.)
Aqui me tornei um crente.
(Insatisfeito por vezes, mas incapaz de soltar-me.)
Aqui acredito possível o encontro das vontades. O triunfo da última chama da sumida humanidade.
Por isso não é uma saída. Será só...
03/09/08
A Saída...
29/08/08
Idiotas Chipados

Está consumada. Uma barbaridade que nunca julguei possível.
O chipamento da vida dos cidadãos.
Claro que "apenas" nos carros em que se deslocam.
Claro que "só" por motivos utilitários e reactivos a uma insegurança que, como não respeita nada nem niguém, tem resposta pronta e adequada de quem nos "governa".
Claro que é para o nosso bem....
Claro!
O que acontece é que cada vez menos gosto desta sociedade em que vivo.
Cada vez mais me inquieta que esteja a criar um filho inocente - futuro cidadão - para o entregar nas mãos de um monstro silencioso.
E por imperativos de moral e de razão não estar a artilhá-lo com as ferramentas de violência adequadas a responder-lhe, quando velho não me couber já a mim lutar num combate de uma outra dimensão, com a vitalidade que então já não terei.
Há muito que a questão do "divórcio entre cidadãos e os seus governantes" está ultrapassada...
[...O "divórcio" entre os cidadãos e o próprio "sistema democrático" que os rege nunca sequer esteve sobre a mesa, na medida em que ninguém se "divorcia" de algo a que nunca esteve intimamente ligado.]
...Hoje - resultado de um intrincado processo e de uma intrincada manipulação - os cidadãos estão divorciados de si mesmos. Cada qual já não procura saber o que pode fazer pela Nação, mas também já nem lhe interessa saber o que a "Nação" pode fazer por si - exercício penoso de intelecto e civismo a que ninguém se sujeita - cortado em qualquer sentido o cordão umbilical que o ligaria à comunidade dos seus semelhantes.
Hoje, o cidadão divorciado de si mesmo não procura intervir sobre o seu meio, atrofiado na sua iniciativa.
Não procura intervir sobre a quem, de forma diferida, poderia caberia essa intervenção, atrofiado na sua voz.
Hoje, o cidadão constitui o isolamento a sua forma de integração social.
[Que ainda que conducente à sua fragilidade e ao seu - inevitável - desespero, tanto o seduz pela ociosidade como lhe surge difuso na anestesia pop do mediatismo e do consumo.]
E, desenraizado, perde os seus referenciais. O seu contexto, a sua identidade e o seu auto-respeito.
Perde a noção de uma origem e de um futuro colectivos - cuja alusão o enchem de um espanto genuíno e de uma indiferença exuberante, nascidos da ignorância, da inconsciência e do orgulho.
Perde o sentido da sua existência.
E está pronto para a ceifa.
Quando o Presidente da República promulga o decreto-lei que permitirá a instalação de chips (...não, não são batatas!) em todos os veículos motorizados, sob pretextos de "facilitar o trabalho das forças de segurança, que terão acesso à informação sobre inspecção periódica e seguro automóvel", "permitir o reconhecimento de veículos acidentados e abandonados" e "ser utilizado na cobrança de portagens e outras taxas rodoviárias", "entende que as dúvidas relativas à reserva da intimidade da vida privada podem ser resolvidas pelo Governo".
Ora, tanto os motivos alegados estão pela insignificância cobertos de ridículo, como o laçarote formal dado à ameaça da privacidade dos cidadãos acrescenta à estupefacção toda a repulsa possível.
Para a sua vigilância.
Para a sua indexação.
Para o seu arquivamento metódico.
Para a sua consulta cirúrgica.
Nem motivo plausível, nem justificação aceitável.
Só numa Nação em que mais por folclore que por convicção se desfraldam os pendões da luta democrática, se admite que se venda em hasta a liberdade de agir do cidadão.
...Porque é dela que se trata!
Se alguém não é livre no resguardo dos seus movimentos, é coarctado neles.
E quando a segurança dos cidadãos é prometida às mãos - não só dos políticos, mas - de um "Governo" que nasceu e vive sob o signo da manipulação, todo o alarme social seria justificado...
...Não fosse já o alarme social o último ingrediente necessário ao caldo da desarticulação da cidadania.
Cidadãos entorpecidos, superficiais e impotentes, não necessitam senão de um empurrão para que aos seus olhos qualquer fórmula manhosa de salvamento seja providencial.
"A criminalidade crescente requer actos radicais."
[Aterrorizar/controlar. Enfraquecer/dominar.]
Primeiro, sob o olhar de uma câmara indiscreta, omnipresente, em circuito fechado paternal sobre o homem...
...Depois, sob uma mesma câmara, fria e penetrante, cerrado no abraço esmagador de um círculo fechado sem apelo.
("Tal e qual como nos States..." - Pela boca tantos morrem...)
Tal como no livro de Orwell.
Mas contra a probabilidade, parece ter aparecido quem ouvisse a notícia.
Quem se pusesse a pensar e tirasse conclusão.
Parece que até houve mesmo alguém com opinião. E que ousou partilhá-la.
E que na largura da net chamou outros a fazê-lo.
...E que de novo mostrou que isso é fácil e é fértil.
Não fui eu, mas aderi. Porque o medo e a revolta também os transporto em mim.
Por mim, por quem passa a meu lado, por aqueles que me seguem e pelos que hão-de vir...
Porque o desgosto galopante de viver no idiotismo também me revolta as entranhas!
Por continuar a crer que a corja que nos apouca nada pode contra nós.
Queiramos. Façamos. Ousemos.
E ser livre pode ser já.
27/08/08
Requintes de Malvadez
A net está repleta de uma fauna variada e rica.
Entre os anjinhos e os canalhas, os egoístas e os generosos, os lorpas e os sábios, os estetas e os alarves, os arruaças e os betinhos, navegamos aos sacões num mar encarpado onde, se incertos governamos a nossa balsa, nenhuma esperança existe de o domar.
No entanto, por vezes, de passagem, ao largo, vemos uma bóia que luz, um foguete lançado por alguém que ajuda...
...A encontrar alguma coisa de jeito nesta viável desolação de lixo e caos.
O blog chama-se Quintus. Nada demais.
Tem ideias, opiniões, bonecos... e requintes de malvadez!
De cada vez que o Clavis Prophetarum lança um dos seus enigmas, já percebi que um formigueiro de cuscos se precipitam sobre os livros, a net, as vizinhas mais velhas, para o desvendar primeiro e somar pontos com a resposta certa.
Inclusive eu... (Que já o pus nos meus links.)
Tão simples, que espantam: os terríficos "Quids".
...Quem se atreve?
"Slave to the Rythm"
Um dos melhores clips de sempre...
[Não fosse sempre tão superlativa a nossa opinião das coisas...]
...Hoje tornado impossível pelo Politicamente Correcto, que nos envenena: "Ai que horror, falar de pretos e brancos!", "Ai que horror, tanta nudez!", "Ai que horror, uma criancinha explorada!".
Como somos hoje - mais - puros e fúteis...
Grace Jones e uma overdose de 80's.
Apreciem.
Rhythm is both the song's manical and it''s demonic charge.
It is the original breath , it is the whisper of unremitting demand.
What do you still want to be said of the singer?
Ladies and gentlemen, miss Grace Jones:
Slave to the Rythm.
I'm just playin' around, baby......
Work all day,
as men who know
wheels must turn
to keep the flow.
Build on up,
don't break the chain,
sparks will fly
when the whistle blows.
Never stop the action,
keep it up, keep it up.
Never stop the action,
keep it up.
Work to the rhythm,
live to the rhythm,
love to the rhythm,
slave to the rhythm.
Axe to wood,
in ancient time.
Man machine,
power line.
Fire burns,
hearts beat strong.
Sing out loud
the chain gang song.
Never stop the action,
keep it up, keep it up.
Never stop the action,
keep it up.
Breath to the rhythm,
dance to the rhythm,
work to the rhythm,
live to the rhythm.
Love to the rhythm,
you slave to the rhythm.
26/08/08
Pedro Nunes no Mundo Americano
Tenho uma surpresa para todos!
Parece que as regras das eleições americanas mudaram à última da hora!
...E eu decidi avançar.
Agradeço por isso o vosso maior apoio!...
(Apesar de a campanha já não estar a correr nada mal.)
Dezanove Séculos Vos Contemplam
Para os lados da Turquia ocorreu um achado arqueológico.
Quando no fim deste mês arqueólogos resgatavam à terra a antiga cidade soterrada de Sagalassos, destruída por um terramoto por volta do século VI da Era de Cristo, depararam com o antigo lugar de uns banhosa públicos e neles com uma grandiosa estátua...
...Do imperador Marco Aurélio.
Marcus Aurelius Antoninus Augustus; 26 de Abril de 121 a 17 de março de 180.
Já lhe fiz alusão, em certo post. Imperador, homem, filósofo, autor...
Uma figura relevante na História da Humanidade.
Que agora nos revisita.
E não posso deixar de sentir profundamente que esta chegada acontece inesperada.
Sem aviso, sem preparação, sem sentido.
Quando, dezanove séculos depois, a imagem de Marco Aurélio ressurge do ventre da terra, que contas podemos nós prestar-lhe?
[A ele ou a qualquer outro homem que, não tendo conseguido vencer a lei do tempo, nos tenha deixado a sua presença, as suas palavras, as suas ideias, o seu ensinamento...]
Em que aproveitámos nós, durante dezanove séculos, o caminho de consciência e dever que desbravou?
Em que transformámos nós, hipócritas civilizados e higiénicos, o seu sólido ancoradouro moral? Humano, familiar, social, político...
Muitas vezes regresso à leitura dos Pensamentos de Marco Aurélio.
À sua serenidade, à sua simplicidade, à proposta da plenitude possível numa vida passageira.
Tão diferentes na dignidade das fórmulas de pacotilha para uma vida alegre, que nos sitiam.
Tão diferentes em humildade das sentenças sobre passado e futuro dos pensadores distróficos que nos acossam.
Tão diferentes em generosidade das ideologias informais que cegam os nossos olhos e nos levam titeritados...
...Dezanove séculos depois, tão esmagadoramente intemporais.
Para quem por aqui passe - invariavelmente uma pessoa de quem eu gosto - uma prenda.
Não "de mim". Mas, irrompendo gloriosa de uma pesada terra impotente, da voz de um homem são.
Guia de bolso condensado para consultar avulso, a gosto, a tempo.
Objectivos de Vida
"Não te deixes distrair com os incidentes que te chegam de fora.
Reserva-te um tempo livre para aprender qualquer coisa de bom e deixa-te de vaguear sem rumo. Já é tempo de te guardares duma vida de errância.
Bem loucos, com efeito, são aqueles que, por serem intriguistas, sentem o cansaço da vida e não têm um fim a que dirijam os seus esforços e, para o dizer de uma vez, as suas ideias."
A Força do Presente
"Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde.
Assim, a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos e o que se perde é, por isso mesmo, igual.
O que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?
Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos e pouco importa assistir ao mesmo espectáculo duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem."
O Controle do Suportável
"Tudo o que acontece, acontece de forma que naturalmente o podes suportar ou naturalmente o não podes suportar.
Se é coisa que naturalmente és capaz de suportar, não protestes, senão mais depressa deitarás tudo por terra.
Lembra-te, todavia, que és naturalmente capaz de suportar tudo o que de ti depende tornar suportável e tolerável; basta que consideres que é o teu interesse ou o teu dever impor-te esse trabalho."
Serenidade da Alma
"Chamas infortúnio para o ser humano aquilo que não é um obstáculo à sua natureza?
Que queres? Aquilo que te sucede impede-te, por acaso, de ser justo, magnânimo, sóbrio, reflectido, prudente, sincero, modesto, livre, e de possuir as outras virtudes cuja posse assegura à natureza do ser humano a felicidade que lhe é própria?
Não te esqueças doravante, contra tudo aquilo que te possa trazer aflição, de recorrer a este princípio: «Acontecer-me isso não é uma desgraça; suportá-lo corajosamente é uma felicidade»."
Viver Sempre Perfeitamente Feliz
"Viver sempre perfeitamente feliz.
A nossa alma tem em si mesma esse poder, de ficar indiferente perante as coisas indiferentes. Ficará indiferente se considerar cada uma delas analiticamente e em bloco, lembrando-se que nenhuma nos impõe opinião a seu respeito nem nos vem solicitar; os objectos estão aí imóveis e somos nós que formamos os nossos juízos sobre eles e os entalhamos, por dizê-lo assim, em nós mesmos; e está em nosso poder não os gravar e, se eles se insinuam nalgum cantinho da alma, apagá-los de repente."
As Coisas Humanas São Efémeras E Sem Valor
"Pensa de contínuo em quantos médicos morreram, eles que tinham tanta vez carregado o sobrolho à cabeceira dos seus doentes; quantos astrólogos que julgaram maravilhar os outros predizendo-lhes a morte; quantos filósofos após uma infinidade de ásperas disputas sobre a morte e a imortalidade; quantos príncipes depois de terem dado a morte a tanta gente; quantos tiranos que, como se fossem imortais, abusaram, com uma arrogância nunca vista, do poder, a ponto de atentarem contra a vida humana. Quantas cidades, se assim podemos dizer, morreram de raiz: Heliqué, Pompeia, Herculano, e outras que não têm conto! Enumera agora, um após outro todos aqueles que conheceste. Este, depois de prestar os últimos serviços àquele, foi posto de pés juntos no leito fúnebre por um terceiro a quem também chegou a sua vez.
E em tão pouco espaço de tempo! Em suma, as coisas humanas é considerá-las como efémeras e sem valor: ontem, um pouco de greda; amanhã, múmia e um punhado de cinzas. Esta minúscula duração vive-a em sintonia com a natureza e chega ao fim com a alma contente: como a azeitona madura que tombasse abençoando a terra que a criou e dando graças à árvore que a deixou crescer."
O Retiro da Alma
"Há quem procure lugares de retiro no campo, na praia, na montanha; e acontece-te também desejar estas coisas em grau subido.
Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos.
Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de ruídos, que na alma, sobretudo quando se tem dentro dela aqueles bens sobre que basta inclinar-se para que logo se recobre toda a liberdade de espírito, e por liberdade de espírito, outra coisa não quero dizer que o estado de uma alma bem ordenada.
Assegura-te constantemente um tal retiro e renova-te nele. Nele encontrarás essas máximas concisas e essenciais; que uma vez encontradas dissolverão o tédio e logo te hão-de restituir, curado de irritações, ao ambiente a que regressas."
A Fidelidade a Nós Próprios
"De certo modo, o homem é um ser que nos está intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suportá-lo.
Mas desde que alguns deles me impeçam de praticar os actos que estão em relação íntima comigo mesmo, o homem passa à categoria dos seres que me são indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz.
É certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espontâneo, as minhas disposições interiores não conhecem entraves, graças ao poder de agir sob desígnio e de derrubar os obstáculos. Com efeito, a inteligência derruba e põe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obstáculo à sua actividade. O que lhe embaraçava a acção favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir."
"O homem comum é exigente com os outros; o homem superior é exigente consigo mesmo."
21/07/08
Mais Ausente
Ausente da ausência.
Numa pausa na pausa.
"Sempre Ausente", do António Variações - Anjo da Guarda; 1983.
Porque há coisas simples muito bonitas.
Apreciem. Muito. Tudo.
Um Ano e Mais Um

Assinalado fora de tempo. Claro.
Dois anos depois, quase trezentos pretextos depois para marcar presença numa net sem rostos, bolo para todos...
Comemoração não sei de quê.
As dúvidas persistem.
"Qual o propósito?"
Se julgar que algum, estou enganado.
A vida é muito mais larga que isto. Sonhos por cumprir.
E cada minuto gasto é um minuto irremediavelmente perdido.
Se disser que não, como explicar-me?
O que faço aqui? Diluviando letras atrás de letras, fios de palavras, ribeiros de frases, marés de discursos...
...Para nada?
E porque sinto sempre que tenho de voltar?
Pode ser que a voragem nos poupe, ao não nos consumir de vez...
20/07/08
Se Querem Que Eu Vos Conte
Querem que eu conte?
Tem sido bem divertido ver aparecer na boca dos génios do pensamento as palavras "Quinta da Fonte".
Divertido. Surrealista.
Quando a Fernanda Câncio - sim, essa - fala da Fonte, ponho-me eu a pensar: "Ah, pois, ela sabe do que fala, que a sua santa avozinha morava lá num T2."
Ou o António Vitorino - "Ah, sim, a caminho das Assembleias Gerais do Santander-Totta é vê-lo a beber mines no Café Mourão."
Ou o Marcelo Rebelo de Sousa. Que como qualquer mortal também tem Google Earth em casa, o que lhe dá alguma noção de para que lado é que a Fonte fica.
Eu sei um pouco do que falo.
Eu sei onde é e o que é a Quinta da Fonte.
...Eu, o Geolouco, a MaisDia, o Jaime, a Loba, a AbelhaMaia, a I.R., o F.F. e tantos outros compadres a quem por razões que nós sabemos tiro o meu chapéu.
Já passei três vezes pela E.B. 2,3 do Alto do Moinho e uma pela famosa - e até polémica -E.B. 2,3 da Apelação.
O que me fez ir ao baú repescar o Projecto Educativo da E.B. 2,3 da Apelação, cuja elaboração coordenei em 2000, com base na informação oficial disponível à altura.
Dizia então o Projecto Educativo, na "Caracterização do Meio Escolar"...
«A FREGUESIA DA APELAÇÃO:
O nome “Apelação” parece ter a sua origem numa peste ocorrida há vários séculos em Lisboa e arredores. A população veio refugiar-se neste lugar, que não estava afectado, “apellando” à protecção de Nª Sr.ª da Encarnação. Passou a freguesia em 1594. [...]
Em 1991, segundo o censo efectuado, tinha 3419 habitantes. Com base na actualização dos cadernos eleitorais de 1998, calcula-se que a população da Freguesia seja de 9000 habitantes, tendo já em atenção os novos realojamentos da Quinta da Fonte. A Freguesia da Apelação tem uma elevada densidade populacional, sendo superior à média do Concelho, [...] com forte grau de urbanização. [...]
Praticamente não há população a trabalhar no sector primário, no entanto o sector secundário ocupa 51,6% e o terciário 46,9%. Predominam os operários industriais, tendo grande peso os indiferenciados – as actividades ligadas aos serviços pessoais e domésticos absorvem um grande número de postos de trabalho.
OS BAIRROS DA APELAÇÃO[...]
O BAIRRO DA QUINTA DA FONTE
A Urbanização da Quinta da Fonte é um empreendimento composto por um total de 776 fogos, destinados a realojamento. Pertencendo a maioria dos fogos à Câmara Municipal de Loures.
Metade dos residentes são provenientes da freguesia do Prior Velho, do Bairro Tete e da Quinta da Serra. 20% são provenientes da Quinta do Carmo, Freguesia da Portela. Os restantes 30% provêm de outras freguesias. Consequentemente, verifica-se uma grande diversidade socio-geográfica da população residente.
Há que considerar também uma grande diferenciação etnico-cultural que, segundo estudos feitos pela C.M.L., apontam para uma presença de 40% de famílias de etnia africana, 39% de famílias de etnia cigana e 21% de etnia branca. Numa análise por nacionalidade dos indivíduos residentes, predomina a nacionalidade portuguesa (71%), embora coabite com diferentes outras: cabo-verdiana, guineense, são-tomeense.
Segundo os mesmos estudos, a população idosa representa apenas 4% do total de indivíduos e 79% da população tem até 34 anos.
É de salientar que se verificam baixos escalões de rendimento, nomeadamente devido ao fraco grau de escolaridade, às baixas qualificações profissionais, ao desemprego e vínculo laboral precário. Numa análise por agregado familiar, o escalão de rendimento mais representativo é o de 55.000$ - 100.000$00. [...]
A população activa desenvolve a sua actividade profissional na venda ambulante (maioria), na construção civil e em actividades ligadas a serviços domésticos e de limpeza.»

Pude dizer no outro dia, no Fórum TSF, que antes de tudo há na discussão superficial da Fonte muita contaminação por asneira (talvez deliberada).
1º - "Esta foi uma rixa pontual. Apesar das tensões vividas no bairro, este é um cenário atípico."
Não, não é. Sei-o e afirmo-o. E mesmo quem fingisse que não o saber não poderia iludir notícias como as de Março do ano passado, com "carros incendiados e tiros disparados" na Fonte, por "jovens", durante a noite.
2º - "Estes foram desacatos provocados por desavenças entre vizinhos, que como problemas pessoais não podem confundir-se com choques rácicos."
De facto não podem. Mas porque os conflitos raciais descambam em tiroteio e as "desavenças" acabam como há algum tempo atrás com uma larga saída da urbanização de ciganos desavindos entre si.
3º - "Os moradores da Fonte são vítimas da sociedade."
Em certa medida. Apenas.
O realojamento destes moradores foi feito em condições sociais a muitos títulos condenáveis. Mas não é menos verdade que foram - em grande parte - resgatados da miséria sanitária da vida que levavam em bairros de lata.
Atingido por estes um patamar de condições básicas de vida, competia-lhes - bem entendido, aos que nunca o fizeram - lutar pela fuga a uma dependência crónica dos rendimentos garantidos que eu pago (90% desta população, avançaram os jornais).
A actividade da(s) "venda(s) ambulante(s)" de ciganos não os auto-qualifica para exigir o que alguns moradores esforçados e honrados (ciganos ou não) exigem ao poder tutelar.
A importação a grosso de famílias africanas - com a conivência de um Estado relapso - até ao vigésimo grau de parentesco, para fogos e urbanizações que não expandem, não revela qualquer capacidade da parte deste grupo social de conceber para si mesmo um plano integrador na sociedade com condições mínimas de bem-estar.
...E miúdos que vão à escola receber a única refeição decente do dia, apenas senhas para o passe, o apoio financeiro da Acção Escolar, uma palavra de conforto, o conselho básico de higiene, são factos diários que competiria a estes grupos acautelar.
Dar o peixe e a cana e pôr a mesa e pré-mastigá-lo e vê-lo ficar na borda do prato? É demais.
4º - "O poder político tem estado atento ao isolamento social."
Em situações destas apenas releva se o problema está resolvido ou não.
Se em Loures o Presidente da Câmara foi politicamente colhido pela situação como que por um touro, também merece o que lhe acontecer. Dizer que lhe tem dado "atenção muito especial" é não dizer nada. Confessar-se "convencido que alguns problemas que surgiram no início do realojamento dos habitantes da Quinta da Fonte estavam solucionados" é invocar uma inadmissível ignorância. Recordar que "há pouco tempo numa festa na Quinta da Fonte [...] tudo estava tranquilo e pacífico" é de uma pobreza demolidora.
Se o Presidente da República vai à Apelação para as fotos e para as palmas validar a mudança da realidade, é ele que leva os tiros que só resvalam nele pela baixíssima qualidade da nossa imprensa. A intervenção dos jovens é fulcral, mas "têm conseguido melhorar o ambiente na freguesia e no bairro da Quinta da Fonte"? Dependerá deles? E que prtessão tem feito o PR para provocar respostas eficazes?
Se o ex-PR Jorge Sampaio diz com o descaramento superior de um Presidente da Aliança para as Civilizações da ONU que "os eventos ocorridos neste bairro não surpreendem pelos problemas que se vêem há alguns anos relacionados com habitação, escolaridade, segurança social e apoio social e profissional destas pessoas", importa confrontá-lo com os dois mandatos na Presidência e a mesma questão que se coloca a Cavaco Silva.
E sobre as culpas dos Governos sucessivos?, e sobre as deste "Governo"... tanto haveria a dizer.
Como sempre todos são vítimas e ninguém é culpado de nada.
Como sempre a "informação" é espectáculo, mais que responsabilidade. E as tretas derrubam qualquer resistência - dizia a Governadora Civil de Lisboa "Será dado tempo às partes para se acalmarem"...
Como sempre a Natureza se encarregará de encontrar uma solução.
neste caso como a do organismo preponderante englutir um menor.
Não quer dizer é que vamos no caminho certo.
Ou em qualquer caminho que seja.
Apenas o de deixar a Natureza englutir grupo a grupo entre si, até à aniquilação total.
Única coisa que cinicamente se aproveita: a bofetada àqueles que maquinalmente apelidam tudo e todos de "racista" por mera expressão de opinião franca.
Esses andam caladinhos, depois do deboche verbal dos últimos dias trocado entre "os ciganos" e "os pretos".
A este assunto, ainda se há-de voltar.
Por força das circunstâncias.

19/07/08
"Ginjando Pela Rua"
Sobre uma gravíssima aleivosia gramatical que por aí desfila de salto e cabelo solto...
"Gravíssima", entenda-se, aos olhos de quem a vê.
...Ou, melhor, de quem a perceba.
Daí a graça do post.
Já muitas vezes dei por mima a correr com os olhos a ementa de um restaurante, um folheto de instruções, um texto publicitário, os movimentos de lábios de um falador, com olhito inquisitório, na ânsia maquinal - mas benévola - de topar a construção, a falha de concordância, a falta de pontuação, um lapso de ortografia,...
...Como descrito do texto.
Sei que muita gente engrossa esta fileira da Língua.
Do respeito, da atenção, da defesa, do combate. Mesmo sem especial formação, mesmo sem obrigação.
Mas essa comum tarefa de zelar pelo Português acaba em obsessão para o prof de uma Língua.
É mais forte do que nós.
Lembro-me de um caso em Óbidos. Na última Chocolatada,
...Que me apressei a escavar.
11/07/08
Quem Por Aqui Passe... III
Muita gente por aqui passa.
Ou, mesmo se não muita, muita para mim...
...Como aquela minha visita repetida de Carcavelos, Lisboa.
Que sempre me evoca o jogo do que está perto e do que está longe. Uma praia. Vivida aqui. Sonhada Além.
04/07/08
De Novo 4 de Julho
Um pouco por todo o lado.
Por mais que alguém não queira, é Dia da Independência no Mundo.
Porque não depende de que alguém o queira ou não, a partilha de cultura do mundo ocidental com a América.
A identidade comum, a afinidade genética, a sua influência - natural e benéfica - no nosso futuro e nas nossas escolhas.
"Colonização cultural!" denunciada pelos "puros" - débeis de uma cultura por que não se batem e por isso definha e se prostitui fácil - mas verdadeiro e último tampão a uma real revolução cultural hegemónica global.
O Mundo suspenso de uma América de destino duvidoso, de caminho incerto.
Também ela em crise por uma globalização-peste que não cura da alma humana.
Mas o que tem a ensinar-lhe uma Nação que comemora como o faz um 10 de Junho que é hoje o que é?
Mas o que tem a ensinar-lhe uma Nação que comemora como o faz um 25 de Abril que é hoje o que é?
O que tem a ensinar-lhe uma Nação que comemora como o faz um 1 de Dezembro que é hoje o que é?
O que podem censurar-lhe no dia de hoje os anti-americanos do costume?...
...Mas Deus faz as coisas muito bem feitas.
É que - para todos - amanhã já é dia 5.
03/07/08
O Triunfo da Vontade
(...Já usei um dia este mesmo título.
Mas gosto tanto dele...)
Este é um vídeo do Youtube.
Sobre um daqueles concursos da treta para captar talentos.
Sobre um homem com um bocado de peso a mais.
Sem grande trato.
Com uma baixa auto-estima.
Que vendia telemóveis numa loja.
E que tinha um sonho.
Paul Potts.
O vídeo já não é de agora mas o F.D. referiu-mo há dias.
Já o vi muitas dezenas de vezes.
Não sei bem porquê.
(A quem não o conheça, desafio-o a conseguir vê-lo uma vez apenas.)
Era tão bom conseguir acreditar que aquela centelha que brilha teimosa dentro de nós não só não morrerá como um dia vai acabar por incendiar-nos...
Mas eu já não consigo.
(Com um abraço ao homónimo C.S.)
(E algumas saudades de tempos idos à F.P. e ao A.M.)
30/06/08
Quem Por Aqui Passe... II
Muita gente por aqui passa.
Ou, mesmo se não muita, muita para mim...
...Como aquela minha visita repetida de Álvaro, Castelo Branco.
Poderá ser que lá para terras de "engenheiros" se consuma este tipo de blogs?
29/06/08
Exames Nacionais do Ensino Básico
ou, "Com A Mão na Massa"
27/06/08
Acabar Com os Ricos II
Barreiras cada vez mais nítidas na exuberância com que um dos partidos da questão tentam enfiar boca-a-baixo a sua mistela.
Há dias a senhora Ministra da Educação correu o risco mal calculado de ir à SIC, em directo, ser entrevistada por um Bento Rodrigues que não esteve para lhe servir papinhas e a mandou eficazmente contra a parede por mais que uma vez, sentenciar sobre os resultados de Provas e Exames.
Negando a pés juntos o alegado crescente facilitismo do ME, explicou que perante uma prova "usam-se técnicas estatísticas para avaliar a complexidade [...]. E quando apenas 5% dos alunos conseguem completar a totalidade da prova com êxito, isso diz tudo, ou alguma coisa".
Isto é, se numa prova hipotética de questões do tipo "Gostas mais de carne ou de peixe?" 95% dos alunos não fossem capazes de responder a uma última: "Em que está a Ministra a pensar neste momento?", reservada naturalmente aos 5% de alunos com poderes paranormais, a prova seria classificada decerto como de considerável dificuldade global!...
Foi bom de ver a dificuldade com que a senhora está em engolir o petisco que optimista sonhou digerir no refestelo da 5 de Outubro com a sua congregação...
Apesar do tom auto-suficiente da entrevista.
Dificuldade desesperada que levou a senhora a calcorrear de novo as ruas da demência e do desprezo, já percorridas muitas vezes durante o seu mandato.
Perante a questão desconcertante do entrevistador, "se estariam os nossos alunos a estudar mais ou as provas do Ministério a ser mais fáceis", e face a opiniões dos craques da Matemática nacional, a Ministra da Educação deu com uma questão a resposta inimaginável:
"NÓS SABEMOS O QUE SE PASSA COM A MATEMÁTICA?"
Da boca da Ministra, num socratismo fora de tempo, foi posta a possibilidade de nada sabermos - isto é, de nestes anos todos do seu mandato ela mesma não se ter mexido para saber - "o que se passa com a Matemática".
Absurdo exercício de fuga e negação...
Mas foi mais longe, desorientada pela questão das queixas de impreparação dos jovens pela boca dos professores do Ensino Superior.
"AQUILO QUE É EXIGIDO CONHECER-SE COMO COMPETÊNCIAS BÁSICAS A MATEMÁTICA E A LÍNGUA PORTUGUESA, AS NOSSAS CRIANÇAS DO QUARTO ANO DE ESCOLARIDADE [CONHECEM-NAS]".
"NÃO É AS QUE ESTÃO A ENTRAR PARA A UNIVERSIDADE".
"SE AS CRIANÇAS NÃO CONTINUAREM A TRABALHAR DEPOIS DOS 10 ANOS O PORTUGUÊS E A MATEMÁTICA... NÃO HÁ MILAGRES, VÃO COM CERTEZA REGREDIR..."
Fora o absurdo das "competências básicas que se conhecem", terminologia de uma cientificidade de vão-de-escada, fica a afirmação de que no percurso escolar dos jovens portugueses, desde os dez anos até à faculdade, é sempre a regredir.
E no exercício, já tão bem conhecido de todos, de desprezo por qualquer profissional que atravessado no seu caminho lhe aligeire o fardo da má-consciência ou da má publicidade, depreende-se que a regressão fica a dever-se à - má - qualidade do trabalho que se realiza nas escolas de 2º e 3º Ciclos e Secundárias, que dão cabo dos nossos meninos...
E porque não ir ler o Pisa com atenção? Mesmo que fossem só os bonecos a cores; que já lhe davam uma certa ideia...


Pelo menos desde 2000. Pelo menos até 2006!
A solidez de uma "verdade" boçal, criada de circunstância, à la minute, muleta para amparar um esquema de pensamento improvisado mas rígido, imagem de uma marca!

E se a propósito da facilidade das várias provas de anos e ciclos na boca de jovens em êxtase o entrevistador comenta "Eu não me lembro dos meus exames serem 'fáceis demais'!", resta a fuga para o beco.
A fuga para o farol da razão.
É verdade que há pessimismo. E que de tão crónico que é nos impede de abandonar o posto - estar de serviço vigilante a esta gente.
É verdade que com gente assim se vai confirmando que o País tem, forçosamente, de estar sempre mal. E que os alunos, como nós os fazemos, sempre maus. Não é opinião, é facto.
É verdade que maus resultados educativos revelaram fragilidades.
E é verdade que melhorias destas, abruptas, sem fundamentos, só podem revelar que, de facto, as provas estão erradas...
Concordo com a Ministra da Educação em cada um destes pontos.
24/06/08
Acabar Com os Ricos I
...O Milagre Educativo Português (com maiúsculas à farta, como convém...).
Orgulho pátrio e esperança em amanhãs que cantam.
Portugal confirma que consegue fazer num ano o que países - chamemos-lhes - normais não lograram senão em gerações.
O Partido Socialista e o "Governo" demonstram que sempre estiveram certos e que o galope desenfreado do decisionismo ministerial não só sabia para onde nos levava - o sucesso educativo da nossa gente - como já lá chegámos.
Aleluia e sai da frente!

Ora, porque me lembrei eu disso outra vez?
Por causa daquela invenção europeia do "Robin Hood" de tirar às petrolíferas as lâminas de gordura que criam de parasitar o cliente, e da intenção do Primeiro-Ministro de ir pensar na questão no que toca a Portugal...
É que eles não sabem que por cá isso já acontece há algum tempo.
Tirar aos ricos, dar aos pobres e tal...
Só que fazendo jus à competência que se lhe conhece o sr. Primeiro-Ministro acaba por ser mais um Dennis Moore, à la Monty Python nos anos 70 (episódio 37 da 3ª temporada), que tira não sabe o quê a não sabe quem, já se tendo esquecido no meio da lufa-lufa do próprio porquê do tirar e do repartir.
Por exemplo na Educação - cá está! - o robinismo deste "Governo" está patente em toda a glória e esplendor.
Perante uma situação como a de 2005 - com "mais de dois terços dos alunos do nono ano" a chumbar no exame de Matemática - ou como a de 2007 - com maus resultados obtidos pelos 1º e 2º ciclos em aspectos centrais de Língua Portuguesa - o "Governo" interveio leonino e anulou as disparidades sociais implícitas nos números.
"- Ai o Pisa diz que as condições familiares do aluno têm influência no sucesso?"
Pimba!, nivela.
Resultado: em 2008 o Milagre Educativo Português é tangível.
Nas Provas de Aferição de Matemática do 1º e 2º Ciclos os resultados negativos cairam para menos de metade e as Provas de Língua Portuguesa, não vindo de tão baixo, também arrebitaram.
Seguiram-se os Exames Nacionais de 9ºAno de Matemática e de Português, a que os alunos chamaram um figo.
Por fim, nos Exames de 12º Ano, os alunos repetiram o disco: "que tinha sido com uma perna às costas"!
Robin Hood à solta: levar a todos consoante o seu legítimo desejo.
(Como se não bastasse já a quem compete produzir resultados maçar-se a produzi-los, ainda teria mais sobre os seus ombros o pincel de explicar ao vulgo a metafísica das suas maravilhosas concretizações...)
...E não faz sentido absolutamente nenhum uma coisa muito singela que salta à vista do observador mais tapado: se as variáveis do jogo educativo se mantiveram - quase - intactas de umas provas para outras, os resultados não teriam condições para uma alteração radical do mau para o óptimo.
Elementar.
Nas escolas continuamos a ter os mesmos alunos com qualidades e vícios, provindos de uma mesma sociedade virtuosa e viciada também ela (na calha da degradação progressiva), trabalhando com os mesmos professores (alguns elevados entretanto à categoria celeste de Titulares), nos mesmos locais, sob as mesmas condições (ah, claro!, agora há uma molhada de computadores que podemos como escravos transportar do cofre para as salas...), à volta dos mesmíssimos programas (...passíveis de beatas "adaptações curriculares"), durante os mesmos anos lectivos, com o mesmo empenho de sempre da parte das criancinhas...
Explicação razoável e empiricamente provada: foram os instrumentos de avaliação que, calibrados de forma diferente, permitiram produzir disparidades gratuitas de resultados!
Com os papás (não Encarregados de Educação a sério com que tive o privilégio de trabalhar, mas as CONFAPs e que tais...) a pedir já explicações, um tira-teimas por exemplo através do confronto das notas do M(ilagre do) E(nsino) P(ortuguês), com as classificações da frequência das disciplinas pelos alunos!
(O que, pessoalmente, acho que tanto pode ser esclarecedor como enganador - é que o MEP já enraíza os seus braços fundos em muitas instâncias há muito tempo...)
Idem aspas sobre o Exame de 9º Ano de Matemática, considerado "o mais fácil de sempre"...
Diz de novo a Sociedade Portuguesa de Matemática que «uma questão do grupo III "poderia ser abordada numa aula do 9.º ano e resolvida por considerações de simples bom senso", enquanto outra do grupo II "pouco ou nada avalia em termos matemáticos, testando apenas a destreza no uso da calculadora"».
...Pela primeira vez na memória ficam as declarações bizarras dos alunos que saindo das provas as achavam "mais fáceis que os testes" realizados à disciplina durante o ano!
Mas do mesmo se queixou a Sociedade Portuguesa de Química, tendo criticado a existência de "questões extremamente elementares" no exame nacional de Física e Química A, e declarando depois da sua realização: algumas perguntas "exigem apenas que o aluno saiba ler".
E nem os exames de Português de 12º Ano escaparam.
Críticas também, ainda que não pelo prisma da facilidade, pela crónica falta de acerto do Ministério da Educação nas questões apresentadas e na concepção da prova - por exemplo, desta vez, com referências à zombie-TLEBS que não deveriam ter surgido.
Uma festa.
Para a Ministra, perfeitamente normal.
Pouco interessa que da razia de asneira se passe à razia de flores. As duas anómalas e injustificáveis.
Antes, os alunos pobres de espírito, de vontade ou de oportunidades tendiam a ficar marginalizados por um ensino mainstream que não lhes dava resposta cabal.
Agora caiu sobre eles, mas também sobre todos os outros, o maná equalizador.
O sucesso não "pode" ser de todos, "é" de todos - quase mesmo dos que se recusem a alcançá-lo.
Para acabar com a dificuldade de atingir patamares, destroem-se os patamares.
E onde ontem existia a meta de um resultado - injustamente para alguns uma miragem - hoje não há nada. Não há motivo, não há pretexto, não há propósito para que alguém queira transcender-se e ir a um mais além que é já aqui.
Eis o Dennis Moore-Robin Hood acéfalo.
De cujos actos se retira um proveito nulo.
O caminho para onde vamos
O que no fim nos espera.
...E muitos, muitos portáteis.
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