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16/07/08

Em Exame - O Resgate da Tropa Fandanga

(...Sim, Ainda...)




O Mundo é redondo.
O meu e o nosso.

E as ideias e os factos rodopiam numa órbita que - se estivéssemos totalmente despertos - nos serviriam de bandeja o confronto e o contraste entre todas as coisas que passaram e todas as que acabarão por vir.

"Exames Nacionais do Ensino Básico?"
"O Resgate do Soldado Ryan!"




Em 1998, um filme esmagador de Spielberg - ainda na memória de todos - contava a história real do Capitão Miller (Tom Hanks), do seu 2º Batalhão de Rangers, do épico Desembarque Aliado na Normandia a 6 de Junho de 1945 e de uma bizarra missão recebida no cenário de combate.

O resgate para a segurança do lar de um jovem soldado, James Ryan, que o Estado Maior Americano decide devolver aos braços da dolorosa mãe...
...Que perdera sucessivos, na torcionária Guerra Mundial, os seus outros três filhos.



Com o que de absurdo tal encerra.

Como se conciliam na cabeça de homens comuns o propósito violento e glorioso de desembarcar na Europa Continental para derrubar o exército nazi e o propósito benévolo e banal de correr a paisagem francesa à procura de um homem para salvá-lo?
Como se conciliam na cabeça de homens comuns a salvação imperiosa da vida de um homem e o risco da vida de todos os outros oito que o procuram?

- Tensões de um grande argumento. -


"O Resgate do Soldado Ryan?"
"Exames Nacionais do Ensino Básico!"

Segundo o Ministério, todos os dias nesta terra de Deus 170.000 professores abordam as costas da Educação em "higgins" apinhados, tensos e inquietos, numa moderna Normandia.
...Com o equipamento e o treino considerados adequados, adivinham que nem um nem outro garantem o sucesso da sua perigosa missão, aguardando nas frágeis barcaças oscilantes que rasgam o espaço o sinal do desembarque e do confronto...

Cada professor, inseguro, impotente, vulnerável, expectante, obriga-se a confiar a sua vida aos camaradas de armas - que sabe poderem falhar sob a pressão, sob o cansaço, sob o medo, como ele próprio - e numa Providência abstracta cujas regras dificilmente entende, única entidade que pode no último momento poupá-lo ao holocausto.

Todos os dias mais de 170.000 professores galgam em corrida e adrenalina os passadiços tombados sobre a água baixa das praias da Educação.



...Na esperança infundada e inconsciente de ganhar ali a batalha que lhe cabe - e outra, e outra, que se lhe seguirão - de uma Guerra Total em que se joga a Nação, em que se joga o futuro, mas que sente que depende menos de si que de estratégias traçadas na segurança de uma qualquer secretária no conforto de um qualquer gabinete.


E há uma personagem exemplar que para mim se evidencia neste drama: o soldado Daniel Jackson (Barry Pepper).
Atirador furtivo do batalhão de Miller, homem de fé e alma de filósofo.


Quando os oito errantes cruzam os campos da Normandia na busca absurda de um homem a quem vão dar as melhores e as piores notícias da sua vida, Jackson não pode deixar de manifestar ao seu comandante a estupefacção que tem dentro de si sobre os desígnios de um destino caprichoso que não controla.



Jackson reconhece o seu dom divino para a guerra.
Mas não percebe como pode qualquer Força Superior colocá-lo logicamente e ao seu dom natural no local mais improvável para o aplicar.
Numa situação em que aquele aparentemente se torne mais banal e inútil.

"Como seria diferente se o seu dedo certeiro pudesse premir o gatilho infalível não em plena paisagem campestre do litoral de França mas em Berlim, na direcção de um Hitler cuja morte, num segundo, ditaria o fim da Guerra e o reinício da História..."

Este diálogo, é tido em grupo. Em marcha. À laia de um discurso peripatético numa academia grega.
Sobretudo entre Jackson e o capitão Miller. Que numa deliciosa coincidência - e para estupefacção dos seus homens e do público - era... professor na sua anterior vida civil.

Jackson expande o seu raciocínio sobre o absurdo que une aqueles homens, numa sequência absurda também ela mas enternecedora.
Em que parece que Miller regressou à sua sala de aula, com aqueles homens ferozes-por-fora pela mão.
Pedindo-lhes uma opinião que adivinha paciente que não será a mais acertada, reforçando Jackson a desenvolver o seu pensamento, observando a correcção da exposição, chamando todos os camaradas a contrapor, e os mais incrédulos à partilha da aprendizagem daquele momento...
Superior, cúmplice, humano.



Quando os professores portugueses partem para missões absurdas diárias como os Exames Nacionais, fazem-no como missão. Que não contestam. Que cumprem.
Como sempre.
E pagam-se da simples felicidade do regressar...

Sujeitos ao risco e à solidão.
À incerteza e à frustração.

Sentem que excluídos das razões de quem ordena não são mais que um utensílio. Meio para um fim misterioso.
Que são carne para canhão. Matéria-prima à pazada numa prensa ou num caldeiro, revolvida e requentada.

Sentem que valem mais que isso.
Que são um recurso apoucado. Que por estupidez ou maldade se mantém subnutrido.
...Conscientes de ser pilares de uma força poderosa que sustenta o bem comum.

Há os que chegam. Os que vão. Uns que se perdem. Os que tombam.
Como em campo de batalha.

Uns dias Jackson - lúcidos e inconformados - outros Miller - serenos e repetindo-se que têm de segurar responsáveis os fiapos de uma manta que não o é.

A Educação.
E a paz?

Com uma curiosidade: os professores portugueses, devido à humidade atlântica, esquecem-se muito amiúde que estão no meio da guerra.

O que frequentemente é fatal.
Para si e para quem está à volta.

08/07/08

Em Exame - Bonecadas


Acabou a saga da 1ª Fase dos Exames Nacionais de 9º Ano.
E com esse fim cessou a minha empresa na Classificação das Provas de Português.

Foi uma experiência muito enriquecedora, que não me importaria de contar.
Mas, como em qualquer caso, há histórias que valem a pena contar e outras que não.
Opto por isso por não contar a minha, totalmente banal, mas da maneira possível contar outra, muito mais ilustrativa.

A história de alguém que a viveu e a narrou a a
lguém, que a comentou com um vizinho, que a ela aludiu em conversa de café, que alguém confessou emprestada ao padre no Domingo passado como enchimento de fronha para evitar falar das suas faltas, que por sua vez foi ouvida por uma prima minha muito beata e muito cusca, que tão detalhadamente quanto possível ma tentou contar e que assim
aqui chega...



Certo dia um professor de Língua Portuguesa, Belmiro, foi chamado para corrigir Exames de 9º ano: ser Classificador.

Teve de ir a uma "
Unidade de Aferição" pré-definida integrar um alegre grupo reunido para uma pena comum. Em fase de ressaca do Ano Lectivo corrigir com minúcia de relojoeiro mais umas dezenas valentes de provas.

Sentaram-no e fizeram-no sentir-se à-vontade. Entre pares. Entre iguais. À volta dos papéis.
...Sem necessidade de lhe pedir um BI ou qualquer prova de que ele era ele e não o seu irmão gémeo, o Almiro, tal a sua cara era de professor, de se chamar Belmiro e de merecer na mão a confiança de um envelope cheio de documentos insubstituíveis.

Foi-lhe dito para intróito que pouco interessava o que ele pensasse no decurso da classificação porque os Critérios eram os do Ministério da Educação e seriam sempre estes a valer.
Ele agradeceu. Bem visto, também ninguém lhe pagava para pensar...

E, a seguir, que se tivesse dúvidas devia esclarecê-las com o seu Supervisor. Em caso nenhum deveria contactar o GAVE
(Gabinete de Avaliação Educacional).
Deveria aproveitar o facto de ter ao seu dispor uma pessoa com superpoderes e tirar partido da sua supervisão.

E agradeceu de novo.
(Mais tarde, sentindo-se desnorteado pela supervisão do seu supervisor, tentou contactar alguém fora da esfera de cristal e acabou por confirmar que no GAVE não havia mesmo ninguém disposto a ouvi-lo.)


Foi então informado de que tinha uma semana e um meio-dia para entregar classificada a sua resma de Exames...
(Apesar de o seu supervisor o ter
inicialmente informado de que teria mais um dia que aqueles e de saber que outros grupos a funcionar noutros lados iriam dispor de mais três.)

...E que a segunda reunião, para "
concertar divergências" através de exercícios de "dupla classificação", seria na véspera da data de entrega - quando, tudo correndo bem, já deveriam os exames estar todos mais que classificados, passados a tinta, apagados de anotações e prontos para entregar na manhã seguinte.



Puseram-lhe então à frente os Critérios de Classificação do Ministério.
Que o surpreenderam.

Ficou a saber que, como medida de combate à resposta aleatória por parte dos examinandos, no Item 1 do Grupo I - "Item de resposta fechada de verdadeiro ou falso" - o Ministério previra classificação de 0 pontos caso o aluno indicasse as afirmações como todas "verdadeiras" ou todas "falsas" (pág.2).
...Com a curiosidade de o enunciado da prova não informar os seus realizadores de que essas hipóteses não só estavam fora de questão como acarretariam a anulação da resposta para efeitos de classificação.


Ficou a saber que em cinco das questões da Prova - "Itens de resposta aberta" - havia a calcular o "peso percentual ponderado" da "correcção linguística" da resposta dos alunos no total da cotação prevista, numa razão nunca superior a "40%"
(pág.3).
...Mas que em duas delas não era possível através desse cálculo atribuir a nenhum aluno cotação máxima à "correcção linguística" - 2 pontos - uma vez que tal prefaria irregularmente 50% do total previsto para a questão - 4 pontos
(pág.6)!
...Ainda que a grelha digital em Excel fornecida pelo Ministério - e a entregar preenchida no final da tarefa do classificador - surpreendentemente o permitisse sem problemas...
...Sendo que sempre o classificador estaria a matar a cabeça com ponderações de
"correcção linguística" que para o Ministério representavam uns ridículos 12% da cotação total da Prova.

E ficou a saber também que no Grupo III, de "Resposta aberta de transformação", em que se pedia ao jovem "um texto narrativo" sobre "o valor do sorriso" ora era admissível que ele apenas desse resposta a uma das exigências, ora não.
Enquanto nos "Critérios Gerais"
(pág.4) se determinava uma "classificação com zero pontos" para uma resposta que não respeitasse a "tipologia" e a "temática" indicadas, os "Critérios Específicos" (pág.12) mandavam atribuir 3 pontos a uma resposta se ela cumprisse "globalmente uma das instruções" - algo do género: "um texto narrativo" sobre o Capuchinho Vermelho ou um soneto sobre "o valor do sorriso" - aceitando-a para classificação nos restantes parâmetros.

...Mas Critérios de Correcção entregues... eram Critérios de Correcção aplicados.
Ponto final. E bico calado.

...Que é isto que faz de nós uns homens.
(Ou não; dependendo do género de partida.)



(Admito que o entusiasmo de contar pormenores possa torná-los redundantes, uma vez que qualquer pessoa curiosa já recolheu esta mesma informação na consulta livre on-line do rol de documentos públicos na base desta narrativa...
Mas peço condescendência.
Tenho de lhe dar o colorido do relato...)



Seguiram-se
serões inteiros no lar, em redor das Provas...

Primeiro,
com o professor Belmiro a trancar a vermelho - com canetas que ele comprou - as mais de 6.000 linhas de folhas de prova preenchidas pelos alunos.
Depois, a contar nas provas que lhe calharam, uma por uma, pica-pica, as mais de 11.000 palavras das respostas dos jovens aos Itens I-8 e III, para apurar se descontaria
(ridiculamente) - no conjunto! - o máximo de 3 pontos em 100, por desvios às extensões de texto pedidas (págs.9 e 13)...

...A que se sucedeu o
clímax-intelectual-em-maratona da classificação das dezenas de provas recebidas.
Realizadas por desgraçados de miúdos com o fusível já semi-queimado, com um pé em férias e bem conscientes de que o Exame - o de Língua Portuguesa como o de Matemática - para o bem ou para o mal
apenas impactaria na sua nota se o resultado nele obtido tivesse uma diferença de dois pontos da nota atribuída na frequência à disciplina...



Tenho bem a noção de que agora é que a história estava a ficar boa... Mas lamento ter de ficar por aqui. Não me é possível ir mais longe.

Também eu estou à espera que a minha prima me conte o resto, para saber como acaba.
Ontem estávamos a falar e acho que ficou sem saldo ou assim...


Paciência.

Mas apesar de tudo estou-lhe muito grato.
Graças a ela pude contar uma história sobre Exames Nacionais.
Um tema do meu carinho.
Porque vendo as coisas como elas são nunca poderia contar a minha própria história: a Norma 2, no ponto 47.2, alínea
a), obriga-me a "manter sigilo em relação a todo o processo de classificação das provas de exame", o que me cortava a pernas...

(Nosso Senhor faz as coisas muito bem feitas.)

Abençoada prima!
É para isto que serve a família.

04/07/08

Para a Tralha Cavaquista, Daqui Vai...

...Um Sentido Pontapé!






Num País em que todo o cão e gato tem direito a "biografias" em papel, na net e em canais da especialidade, o Sr. Pinto de Sousa não é excepção.
Saiu para os escaparates um
rolo de papel de folha simples sobre o percurso do político e do Homem que se fartou de bulir para cá chegar. (Confira-se o site da FNAC.)

"Cá", à política,
a Lisboa, ao sucesso, ao Governo, ao zénite do superior pensamento da Nação.

(Coitadinho, o que ele moirou para vingar desfavorecido na Beira..., o que ele batalhou para singrar sozinho na esfera do PS da metrópole..., o que ele suou para se formar no académico que é hoje..., o esforço que foi arrancar o seu poder actual às mãos aferrolhadas de Santana Lopes..., os tormentos que passa ainda agora, coitadinho, com uma imprensa tão atenta, isenta e agressiva...
Coitadinho...)


Por isso, para tal alma tudo é pouco.

Coube o frete..., isto é, a distinção, à sub-directora da Antena1, a jornalista Eduarda Maio, de quem até gosto.
...Que mais ou menos nos termos que se esperava explicou - em longos seis minutos - à RTP (!!!) o processo de postura da obra.
Como as dez horas de entrevista com o protagonista da
"biografia não autorizada".
Como a extenuante pesquisa sobre a longa vida de salientes concretizações do "Menino de Ouro do PS" - termo da autoria de terceiros e que por isso não compromete a imparcial e inócua obra literária!

Mas ainda que triste, não é esta a parte mais lamentável.


Foram mais reveladores os próprios detalhes do parto do opúsculo.

Numa comovente cena de Natividade, vieram reunir-se em redor do Menino (de Oiro) os Reis Magos da nata VIP que pelas heterogéneas razões que lá saberão trouxeram os incensos e as mirras que lançaram na farta molhada das oferendas da circunstância.

Um deles: Dias Loureiro.



(...É difícil conciliar o reconhecimento da liberdade individual e universal de falar e agir de cada um com a censura e o asco que me sufocam e se me moldam em palavras... mas paciência.)

Cada vez mais me ocorre a expressão usada por Vicente Jorge Silva - então recém-convertido à rosa - quando um dia julgou (e bem) ver regressar à política,
depois do flop, o cortejo inevitável dos que apelidou de "tralha guterrista".
...Ocorre-me a expressão, adaptada pelos tempos para a "tralha cavaquista".



Cada vez mais o aluvião do Rio Cavaco se revela um espessante poderoso do caldo barrento em que involuntariamente nadamos.
Cada novo rosto laranja que se reencontra, cada nova individualidade que sobressai e reforça posição no laranjal ou no Nacional Rectângulo, uma velha memória comum de colaboração política no Governo de um Cavaco-Primeiro; hoje um Cavaco-Sombra mais abrangente e tentacular que o que o seu magistério prevê, do que a sua amorfa prática sugere.



Cavaco Silva, o magnificamente sereno Presidente da República, monarca de cognome "O Inútil" (esta paga direitos ao Kaos), o "Cooperante Estratégico" com a farsa governativa, ainda assim não dorme.
E segundo um plano antigo e abrangente,
os seus tentáculos penetram na sociedade influenciando-a, controlando-a, manietando-a.

Dir-me-á alguém que sempre assim foi e sempre assim será...

Que o polvo soarista ainda aí está para lavar e durar. Que o sampaísta idem. Que o "-ista" agarrado a este ou agrafado àquele - fremente, sôfrego, subalterno, parasita - é uma fatalidade da política e da sociedade...
Seja-o.
Mas que não seja menor a inevitabilidade de o denunciar, quem o ache o insulto e a perversão que configura.

Porque não façamos confusões.

Cavaco Silva foi o maior Primeiro-Ministro que este País já teve. E sem parecenças de vir a perder o galardão para qualquer outro nas próximas décadas.
E a
quem a razão não se encontre politicamente toldada, aconselha-se a leitura do laudatório "As Reformas da Década", onde os mais esquecidos poderão sempre recordar o percurso de um Portugal-Cavaco - saído de 40 anos de subdesenvolvimento e mais dez de bagunça revolucionária de plantar de estaca - que se actualizou, modernizou e dignificou perante si mesmo.



...Apenas as geniais palavras que serviram para caracterizar Mário Soares ("É um animal político, não é um animal ético.") se vão aplicando ao discreto algarvio pacato e competente.

Cavaco, afinal, tinha "uma agenda". Sua.
Um plano. Para si.
Um projecto e um propósito individuais de alcance duvidoso.
Tendo sido a corrida à Presidência a evidenciá-lo. Ao colocar-se acima e além de tudo.



E quando um Barão-Laranja Dias Loureiro se presta à dupla vassalagem de patrocinar o lançamento de um já miseravelmente propagandístico "O Menino de Ouro do PS", ocorre a cada um de nós que nada é por acaso.

Disse que Sócrates "faz bem ao País", pelo seu optimismo.
Disse que Sócrates "emociona" pelo "
lado dos afectos", pelo "amor pela sua terra", pelos "valores que o amarram à vida". Disse da sua "enorme generosidade", "sensatez e prudência". Das suas qualidades de "coragem" de "homem trabalhador".
Disse que Sócrates, "tal como Tony Blair" "é infatigável". Que com a sua "coragem", "capacidade de liderança" e "capacidade estratégica" está "muito longe de estar acabado"...

...E eu sinto, em partes iguais, desnorte e vergonha.

E se aparecem umas aves raras - por exemplo Paulo Teixeira Pinto (lá estão eles...) - a dizer coisas tão convenientes como
que a «dicotomia “nós” e “eles” [é] "péssima" para o país», porque "cria descrédito" e "ajuda a minar o apoio social que as políticas possam ter", é um pouco mais que suspeito.
Enquadra-se no estilo-neutro da Presidência, no estilo-suave da oposição laranja, no estilo-morto do espírito crítico dos moradores da Nação.



Que alguém chegasse um dia a assumir que não existem diferenças entre os partidos, seria de louvar.
Que o PS e o PSD andam no alterne (ou alternância) político (-a, ou lá como se chama), gostaria de ver alguém reconhecer.
Que os pequenos partidos políticos apenas esperam para a sua sobrevivência ou um lugar à mesa grande ou que o circo pegue fogo de vez para correrem de baldinho, seria giro ver assumir...

Até lá, não me gozem. Não me insultem.

E se as tralhas partidárias se afastarem demasiado da realidade do País, estará na hora de uma reacção do País e dos Portugueses. De uma mudança.

Por isso, do fundo do meu coração laranja, para a tralha cavaquista, daqui vai
... um sentido pontapé!...

29/06/08

Exames Nacionais do Ensino Básico

ou, "Com A Mão na Massa"



"Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Preparai-vos oh senhores,
P'ra uma história de pasmar.
Passava já uma semana
Que ia na volta do mar,
Não tinha mais a fazer
Ou p'ra onde se virar,
Enrolada naquele molho
Do fingir de ensinar.
Mas a vontade era rija,
Não a puderam dobrar.
Que se está votada à sorte
A sorte faz-se ao lutar..."

27/06/08

Acabar Com os Ricos II



E neste processo revolucionario-milagreiro educativo há mesmo duas barricadas - chamemos-lhes... maneiras de o encarar.
Barreiras cada vez mais nítidas na exuberância com que um dos partidos da questão tentam enfiar boca-a-baixo a sua mistela.

Há dias a senhora Ministra da Educação correu o risco mal calculado de ir à SIC, em directo, ser entrevistada por um Bento Rodrigues que não esteve para lhe servir papinhas e a mandou eficazmente contra a parede por mais que
uma vez, sentenciar sobre os resultados de Provas e Exames.


Negando a pés juntos o alegado crescente facilitismo do ME, explicou que perante uma prova "usam-se técnicas estatísticas para avaliar a complexidade [...]. E quando apenas 5% dos alunos conseguem completar a totalidade da prova com êxito, isso diz tudo, ou alguma coisa".

Isto é, se numa prova hipotética de questões do tipo "Gostas mais de carne ou de peixe?"
95% dos alunos não fossem capazes de responder a uma última: "Em que está a Ministra a pensar neste momento?", reservada naturalmente aos 5% de alunos com poderes paranormais, a prova seria classificada decerto como de considerável dificuldade global!...

Foi bom de ver a dificuldade com que a senhora está em engolir o petisco que optimista sonhou digerir no refestelo da 5 de Outubro com a sua congregação...
Apesar do tom auto-suficiente da entrevista.


Dificuldade desesperada que levou a senhora a calcorrear de novo as ruas da demência e do desprezo, já percorridas muitas vezes durante o seu mandato.

Perante a questão desconcertante do entrevistador, "se estariam os nossos alunos a estudar mais ou as provas do Ministério a ser mais fáceis", e face a opiniões dos cra
ques da Matemática nacional, a Ministra da Educação deu com uma questão a resposta inimaginável:
"NÓS SABEMOS O QUE SE PASSA COM A MATEMÁTICA?"


Da boca da Ministra, num socratismo fora de tempo, foi posta a possibilidade de nada sabermos - isto é, de nestes anos todos do seu mandato ela mesma não se ter mexido para saber - "o que se passa com a Matemática".
Absurdo exercício de fuga e negação...



Mas foi mais longe, desorientada pela questão das queixas de impreparação dos jovens pela boca dos professores do Ensino Superior.

"AQUILO QUE É EXIGIDO CONHECER-SE COMO COMPETÊNCIAS BÁSICAS A MATEMÁTICA E A LÍNGUA PORTUGUESA, AS NOSSAS CRIANÇAS DO QUARTO ANO DE ESCOLARIDADE [CONHECEM-NAS]".
"NÃO É AS QUE ESTÃO A ENTRAR PARA A UNIVERSID
ADE".
"SE AS CRIANÇAS NÃO CONTINUAREM A TRABALHAR DEPOIS DOS 10 ANOS O PORTUGUÊS E A MATEMÁTICA... NÃO HÁ MILAGRES, VÃO COM CERTEZA REGREDIR..."

Fora o absurdo das "competências bás
icas que se conhecem", terminologia de uma cientificidade de vão-de-escada, fica a afirmação de que no percurso escolar dos jovens portugueses, desde os dez anos até à faculdade, é sempre a regredir.

E no exercício, já tão bem conhecido de todos, de desprezo por qualquer profissional que atravessado no seu caminho lhe aligeire o fardo da má-consciência ou da má publicidade, depreende-se que a regressão fica a dever-se à - má - qualidade do trabalho que se realiza nas escolas de 2º e 3º Ciclos e Secundárias, que dão cabo dos nossos meninos...

E porque não ir ler o Pisa com atenção? Mesmo que fossem só os bonecos a cores; que já lhe davam uma certa ideia.
..


clicar p/ aumentar - fonte: Relatório Pisa; 2006 ( a ler, mesmo!!... )



clicar p/ aumentar - fonte: Relatório Pisa; 2006 ( ...mesmo, mesmo!! )

No Ensino Português (pré-Milagre), não sendo nenhuma avaria nem surpresa, a literacia nos domínios da Matemática e do Português são crescentes durante a escolaridade dos jovens.
Pelo menos desde 2000. Pelo menos até 2006!

A solidez de uma "verdade" boçal, criada de circunstância, à la minute, muleta para amparar um esquema de pensamento improvisado mas rígido, imagem de uma marca!



Mas a fuga continua. Sempre. Desembestada. Em frente.

E se a propósito da facilidade das várias provas de anos e ciclos na boca de jovens em êxtase o entrevistador comenta "Eu não me lembro dos meus exames serem 'fáceis demais'!", resta a fuga para o beco.
A fuga para o farol da razão.

"HÁ UNS QUANTOS PESSIMISTAS DE SERVIÇO NESTE PAÍS. [...] O PAÍS TEM QUE ESTAR SEMPRE MAL E OS ALUNOS TÊM QUE SER SEMPRE MAUS. QUANDO OS RESULTADOS SÃO POR SI MAUS E REVELAM FRAGILIDADES NO CONHECIMENTO DAS COMPETÊNCIAS, AÍ ESTÁ A PROVA DE QUE O PAÍS ESTÁ MAL. QUANDO MELHORA, COMO O PAÍS NÃO PODE MELHORAR, É PORQUE AS PROVAS ESTÃO ERRADAS."

É verdade que há pessimismo. E que de tão crónico que é nos impede de abandonar o posto - estar de serviço vigilante a esta gente.
É verdade que com gente assim se vai confirmando que o País tem, forçosamente, de estar sempre mal. E que os alunos, como nós os fazemos, sempre maus. Não é opinião, é facto.
É verdade que maus resultados educativos revelaram fragilidades.
E é verdade que melhorias destas, abruptas, sem fundamentos, só podem revelar que, de facto, as provas estão erradas...
Concordo com a Ministra da Educação em cada um destes pontos.

Mas não me cheira que a senhora apreciasse essa coincidência.




Por isso creio que continuaremos a divergir.

Mesmo quando a senhora Ministra diz dos "FACTOS CONCRETOS, [COMO] AS HORAS QUE ESCOLAS E PROFESSORES TIVERAM PARA MELHORAR OS RESULTADOS".

Sei falar-lhe da ilusão que é o reforço da leitura em sala de aula, só por si, recuperar resultados de alunos neste intervalo de tempo...
...E da indecente sovinice de um Ministério que regateia crédito horário docente para os apoios em Língua Portuguesa aos alunos que deles precisam.

Como sei falar-lhe de um Plano Nacional da Matemática cujos resultados espelham a sujeiição às mesmas burocracias, às mesmas restrições orçamentais, à mesma engrenagem ministerial castradora de sempre.

Mas isso cheira-me que será assunto para mais tarde.

24/06/08

Acabar Com os Ricos I


por lá passei várias vezes e ainda não deve ficar por aqui.
...O Milagre Educativo Português (com maiúsculas à farta, como convém...).
Orgulho pátrio e esperança em amanhãs que cantam.

Portugal confirma que consegue fazer num ano o que países - chamemos-lhes - normais não lograram senão em gerações.

O Partido Socialista e o "Governo" demonstram que sempre estiveram certos e que o galope desenfreado do decisionismo ministerial não só sabia para onde nos levava - o sucesso educativo da nossa gente - como já lá chegámos.

Aleluia e sai da frente!

Ora, porque me lembrei eu disso outra vez?
Por causa daquela invenção europeia do "Robin Hood" de tirar às petrolíferas as lâminas de gordura que criam de parasitar o cliente, e da intenção do Primeiro-Ministro de ir pensar na questão no que toca a Portugal...
É que eles não sabem que por cá isso já acontece há algum tempo.

Tirar aos ricos, dar aos pobres e tal...


Só que fazendo jus à competência que se lhe conhece o sr. Primeiro-Ministro acaba por ser mais um Dennis Moore, à la Monty Python nos anos 70 (episódio 37 da 3ª temporada), que tira não sabe o quê a não sabe quem, já se tendo esquecido no meio da lufa-lufa do próprio porquê do tirar e do repartir.


Por exemplo na Educação - cá está! - o robinismo deste "Governo" está patente em toda a glória e esplendor.

Perante uma situação como a de 2005 - com "mais de dois terços dos alunos do nono ano" a chumbar no exame de Matemática - ou como a de 2007 - com maus resultados obtidos pelos 1º e 2º ciclos em aspectos centrais de Língua Portuguesa - o "Governo" interveio leonino e anulou as disparidades sociais implícitas nos números.

clicar p/ aumentar - fonte: Relatório Pisa; 2006 ( a ler!!... )


"- Ai o Pisa d
iz que as condições familiares do aluno têm influência no sucesso?"
Pimba!, nivela.

Resultado: em 2008 o Milagre Educativo Português é tangível.
Nas Provas de Aferição de Matemática do 1º e 2º Ciclos os resultados negativos cairam para menos de metade e as Provas de Língua Portuguesa, não vindo de tão baixo, também arrebitaram.
Seguiram-se os Exames Nacionais de 9ºAno de Matemática e de Português, a que os alunos chamaram um figo.
Por fim, nos Exames de 12º Ano, os alunos repetiram o disco: "que tinha sido com uma perna às costas"!

Robin Hood à solta: levar a todos consoante o seu legítimo desejo.


Claro que há sempre uns chatos - como eu, como outros professores que não gostam de ser papados por lorpas, e muitos cidadãos atentos - para quem tudo tem sempre de fazer um custoso sentido.
(Como se não bastasse já a quem compete produzir resultados maçar-se a produzi-los, ainda teria mais sobre os seus ombros o pincel de explicar ao vulgo a metafísica das suas maravilhosas concretizações...)

...E não faz sentido absolutamente nenhum uma coisa muito singela que salta à vista do observador mais tapado: se as variáveis do jogo educativo se mantiveram - quase - intactas de umas provas para outras, os resultados não teriam condições para uma alteração radical do mau para o óptimo.
Elementar.

Nas escolas continuamos a ter os mesmos alunos com qualidades e vícios, provindos de uma mesma sociedade virtuosa e viciada também ela (na calha da degradação progressiva), trabalhando com os mesmos professores (alguns elevados entretanto à categoria celeste de Titulares), nos mesmos locais, sob as mesmas condições (ah, claro!, agora há uma molhada de computadores que podemos como escravos transportar do cofre para as salas...), à volta dos mesmíssimos programas (...passíveis de beatas "adaptações curriculares"), durante os mesmos anos lectivos, com o mesmo empenho de sempre da parte das criancinhas...

(Houve de permeio para aí uma "medidas" fabulosas do Ministério da Educação, houve, mas lá irei.)

Explicação razoável e empiricamente provada: foram os instrumentos de avaliação que, calibrados de forma diferente, permitiram produzir disparidades gratuitas de resultados!

Dizia agora o Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática sobre a Prova de Aferição da disciplina deste ano - cujo enunciado considerara já publicamente "elementar" e "ridículo" - que "ninguém sabe comparar os resultados das provas, porque estas têm sido feitas com critérios e com graus de dificuldade diferentes, pelo que não é possível chegar à conclusão de que os alunos estão melhores assim como não é possível concluir que estão piores" (dando aqui a ironia um claro benefício à casa!).

Com os papás (não Encarregados de Educação a sério com que tive o privilégio de trabalhar, mas as CONFAPs e que tais...) a pedir já explicações, um tira-teimas por exemplo através do confronto das notas do M(ilagre do) E(nsino) P(ortuguês), com as classificações da frequência das disciplinas pelos alunos!
(O que, pessoalmente, acho que tanto pode ser esclarecedor como enganador - é que o MEP já enraíza os seus braços fundos em muitas instâncias há muito tempo...)

Idem aspas sobre o Exame de 9º Ano de Matemática, considerado "o mais fácil de sempre"...

...Ou sobre os Exames de Matemática A e B do 12º Ano; cuja excessiva facilidade se encontraria "abaixo do nível do programa".
Diz de novo a Sociedade Portuguesa de Matemática que
«uma questão do grupo III "poderia ser abordada numa aula do 9.º ano e resolvida por considerações de simples bom senso", enquanto outra do grupo II "pouco ou nada avalia em termos matemáticos, testando apenas a destreza no uso da calculadora"».

...Pela primeira vez na memória ficam as declarações bizarras dos alunos que saindo das provas as achavam "mais fáceis que os testes" realizados à disciplina durante o ano!



Mas do mesmo se queixou a Sociedade Portuguesa de Química, tendo criticado a existência de "questões extremamente elementares" no exame nacional de Física e Química A, e declarando depois da sua realização: algumas perguntas "exigem apenas que o aluno saiba ler".

E nem os exames de Português de 12º Ano escaparam.
Críticas também, ainda que não pelo prisma da facilidade, pela crónica falta de acerto do Ministério da Educação nas questões apresentadas e na concepção da prova - por exemplo, desta vez, com referências à zombie-TLEBS que não deveriam ter surgido.



Uma festa.
Para a Ministra, perfeitamente normal.

Pouco interessa que da razia de asneira se passe à razia de flores. As duas anómalas e injustificáveis.
Antes, os alunos pobres de espírito, de vontade ou de oportunidades tendiam a ficar marginalizados por um ensino mainstream que não lhes dava resposta cabal.
Agora caiu sobre eles, mas também sobre todos os outros, o maná equalizador.
O sucesso não "pode" ser de todos, "é" de todos - quase mesmo dos que se recusem a alcançá-lo.
Para acabar com a dificuldade de atingir patamares, destroem-se os patamares.
E onde ontem existia a meta de um resultado - injustamente para alguns uma miragem - hoje não há nada. Não há motivo, não há pretexto, não há propósito para que alguém queira transcender-se e ir a um mais além que é já aqui.

Eis o Dennis Moore-Robin Hood acéfalo.
De cujos actos se retira um proveito nulo.

O caminho para onde vamos
O que no fim nos espera.

...E muitos, muitos portáteis.