17/10/06

Estado de graça

Local: uma sala de professores de uma escola portuguesa.
Dois professores que consultam documentação afixada.
Ele em greve, ela não.

Ela (espontânea) - Mas tu estás em greve? Vocês são mesmo queixinhas.
Ele (simplesmente) - Estou. Estou a lutar por algo que é meu. E que é teu.

Ela (pronta e reinadia) - ...Vai à merda! (Sorriso...)

E lá foram à merda os dois.
Com a diferença que ele estava ciente do seu rumo.

Verdade e consequência?


Será verdade e uma consequência que ontem o Fórum da TSF (a "instituição nacional" da opinação radiofónica) tenha versado sobre a Greve de Professores de hoje e amanhã, entretendo-se hoje com outro tema?

É curioso.

A isto, em gíria gastronómica, chama-se amaciar a carne.
Um dia antes da greve (que seria bom que fosse esmagadora - sim, e-s-m-a-g-a-d-o-r-a...), convida-se o povileu a desancar nos profs para chegarmos ao dia de hoje com o bife mais tenro, já pronto a comer pela "opinião pública".

Cheira-me que os mesmo que intimamente se espantaram com a massa de gente do dia 5 de Outubro não gostariam de correr hoje o risco de ter em directo uma sessão de desova-Ministra.

Assim, já lá vai a oportunidade, já lá vai o "fórum", quem ouviu ouviu, quem não ouviu ouvisse, mas a senhora já tem as orelhas em descanso.

Será verdade e uma consequência de a TSF "pertencer" ao "nosso" generoso Estado?

Greve de professores

Com a internet à mão, não há desculpa.
A quem eu tenha de explicar com as letras todas porque faço greve, não me quer de certeza entender.

12/10/06

O "vomit chic"

Para alguém que tenha um conhecimento minimamente aprofundado do que é a "juventude" nos dias que correm - por exemplo para um professor! - não é novidade...
Não deixa contudo de revoltar as tripas.

Vimos ontem na RTP a reportagem “Até ao Coma Alcoólico” e ninguém pode ter deixado de ficar chocado, angustiado e revoltado.
Com a futilidade, com a irresponsabilidade, com a inconsciência.

Falava a reportagem da "noite" dos jovens lisboetas, regada abundantemente com álcool, para além de qualquer controlo, esticada até altas horas da manhã em total roda livre.
Ou precisando, já nem "jovens" mas crianças!
Que abalam de casa de táxi
, acorrem a concorridíssimos espaços de animação nocturna onde atestavam os buchos de álcool e sensações, e queimam a noite e os euros no carrossel vadio das capelinhas da capital.
Porque "sair à noite sem beber é uma seca"!

"Futilidade, irresponsabilidade, inconsciência."
...Dos adultos, entenda-se!

Quem é o degenerado do pai que recheia de dinheiro o bolso a um filho de 10, 14, 16 anos que seja, o mete num táxi, o manda para a noite, sabe Deus para onde, e o recebe sem perturbação de alma alcoolizado de madrugada?
Quem é o degenerado do pai, que não é metido na cadeia?

Quem é o criminoso do comerciante cujo negócio de "diversão nocturna" consiste em chular sem escrúpulos miúdos desta idade, que encharca de bebidas alcóolicas menores - por vezes em bar aberto - no único limite do dinheiro que tenham para o consumir?
Quem é o criminoso, que não vai preso?

Quem é o nojento do Estado que permite este género de coisas, pela permissividade e inacção das suas múltiplas sucursais e ramificações, e que tem o descaramento de fazer tantos discursos moralizadores sobre as prevenções de dependências, formação dos jovens, obrigações dos agentes económicos e responsabilidades dos pais?
Quem é o nojento do Estado, que não é chamado à justiça?

Por estas e outras é que acho engraçado andar o Governo com estas guerras de alecrim e manjerona (não fossem elas seriíssimas) sobre estutos de carreiras de professores e outras areias atiradas para os olhos.
"O País está metido num sarilho"? Ai está, pois! Maior do que a generalidade dos portugueses julga.

Porque estes jovenzinhos não são de minorias étnicas.
Não vivem em bairros de realojamento.
Não estão visadas por nenhum Roteiro de Inclusão.
Não provêm de famílias (aparentemente) desestruturadas.

Vivem apenas num País de brincar.
Em que brincar é um direito constitucional. Qualquer um, com qualquer coisa.
Em que o "chic" é o brincar (muita, muita gente) com coisas sérias, para lá do limite do aceitável.
Senão, a vida "é uma seca"... (Expressão sinistra que há dez anos de ensino atrás não existia, nem em similares!...)

Parabéns a Mafalda Gameiro, Pedro Mateus e Guilherme Brizído.
Mesmo os mais distraídos, não digam agora que não foram avisados.

Mentalidade


Dizia-me no outro dia a minha mãe: "fui ao teu blog, gostei, está muito bem escrito, mas é tudo tão negativo"...
Ao que só pude responder: "é verdade, mas não tenho culpa que aquilo de que falo seja o que me incomoda, e por isso... Mas deixe, que hei-de colocar um post que seja mais positivo".

Cá está ele.

Segundo consta, há uma proposta de alteração para o Código Penal que proíbe os castigos corporais sobre as crianças.
Que proíbe mesmo...

É decerto uma pequena mudança nas palavras de uma lei escrita, feita de papel, que o português comum não conhece nem de cor nem de côr.
Mas representa uma mudança de mentalidade. Sabemos que muitas vezes não se pode esperar que as "mentalidades" mudem; precisamos de as fazer mudar.


Aqui está. Um contributo positivo, uma marca que este Executivo deixará para o futuro.

(Agora... Aproveitem bem. A minha bonomia, o louvor ao Governo... É que, infelizmente, um cidadão normal que viva no rectângulo não costuma ter muitas razões nem para uma nem para outro.)

11/10/06

O primeiro Presidente


O Presidente da República iniciou um Roteiro contra a exclusão social visando em especial os sem-abrigo e as prostitutas, e em
Lisboa a acção visou promover igualmente a integração dos imigrantes.

Seria evidente a comparação com as Presidências Abertas do tempo do Presidente Soares, decalcadas com a moleza típica pelo Presidente Sampaio.
Mas só os distraídos aí se demorarão.


Neste caso, não só houve membros do Governo inseridos no programa (lealdade que Soares nunca soube o que é...), como foi o primeiro Presidente da República a visitar uma instituição como o Lar Associação-O Ninho, de abrigo de prostitutas à procura de ajuda para construir um projecto de vida (ousadia política que Sampaio desconhece), como ainda, à saída, se manifestou frontalmente contra a legalização da prostituição.
Bolas! Para "político correcto" em funções, consegue ser bastante "fracturante".


Esperam-se surpresas do Presidente de todos os portugueses.

As bestas e os bestiais - parte 2

Blá, blá, blá, se fosse noutro tempo havia de ser bonito se acontecesse isto...

1. O Primeiro-Ministro encarregou-se de bradar que no próximo Orçamento de Estado todos os ministérios vão ter um corte nas suas dotações.
À excepção do Ministério da Ciência que vai ter um acréscimo de 64%.

Faz-me lembrar quando jogava tardes de Monopólio com o meu irmão. Eram resmas de massa a mudar de mãos, prédios a crescer, ganhar tudo, ficar sem nada...
O sentido de equilíbrio e de mesura do engº Sócrates é uma coisa assim do género.

2. O Governo já anunciou com igual ventosidade que, como o País está depauperado, o investimento público é outro que vai levar uma talhada.

Desta vez, o Dupond fez a interpretação mais inteligente, linear, e por isso preocupante, dos valores do anúncio.
Os senhores do Governo falam de um corte de investimento, não sobre o orçamentado para este ano, mas sobre a execução do que foi orçamentado!!!
Isto é, já este ano a execução do que se tinha previsto investir patinou, para o ano será esse o valo
r reduzido em percentagem.

Estuporada da Manuela Ferreira Leite que queria equilibrar as contas do País retraindo o investimento!!

2,7. Ainda não se confirmou, mas só o cego não vê, que a Brigada de Trânsito, a Brigada Fiscal e outras quatro Brigadas Territoriais da GNR estão na calha para marchar, como boas estruturas de força paramilitar que são.

É que as ditas foram sujeitas a "um estudo" encomendado pelo Ministério da Administração Interna, e com este Governo-Matadouro isso só significa uma coisa: foi aconselhada a sua extinção e portanto está legitimado o seu abate.


Havemos de ver o dia em que este País ainda vai dar lucro!

Dupont e Dupond


Está a dar-me para o experimentalismo...
Cá vai disto.


http://tsf.sapo.pt/online/portugal/interior.asp?id_artigo=TSF173884
PS recusa ouvir PGR para não «incomodar» Souto Moura
O Partido Socialista voltou a recorrer à ironia para justificar esta quarta-feira, na Comissão dos Assuntos Constitucionais, o facto de ter rejeitado a audição do ainda Procurador-geral da República Souto Moura.

http://tsf.sapo.pt/online/portugal/interior.asp?id_artigo=TSF174231
O PS decidiu viabilizar o pedido do Bloco de Esquerda para que seja criada uma comissão parlamentar de inquérito ao caso do «Envelope 9», relacionado com a listagem das chamadas de altas individualidades do Estado anexado ao processo da Casa Pia.




http://tsf.sapo.pt/online/portugal/interior.asp?id_artigo=TSF173516
O combate à corrupção foi ignorado no recente pacto para a Justiça, defende Maria José Morgado, que diz que o problema está na lei e não na investigação. O presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal concorda.

http://tsf.sapo.pt/online/portugal/interior.asp?id_artigo=TSF174257
O líder do PSD propôs a consagração de um «significativo reforço» das verbas da Polícia Judiciária no próximo Orçamento de Estado, salientando que sem capacidade para investigar, a «corrupção faz o seu caminho» e os crimes ficam impunes.



Deixem-me adivinhar: os políticos estão desacreditados aos olhos dos portugueses...

10/10/06

O que é que está a dar no outro?

"Me clica, vai..."

09/10/06

Dá-se mais valor ao que não se tem?

Dá-se mais valor ao que não se tem?
É capaz...
E como espelho, desvaloriza-se o que se dá como adquirido.

Hoje em Portugal há um couro (ou coiro) de vozes contra os professores.
Como iludi-lo?
Contra a sua preparação, empenho, desempenho, remuneração, progressão, horário e calendário de trabalho, atribuições, competências...
Daria para perguntar a esses perfeitos a rodos o que acham que não está "errado" com os professores.

É tranquilizante (para eles e para o poder político), porque pensando assim se vive a ilusão de ter encontrado respostas automáticas e credíveis para o desencanto, a inadaptação, a violência, o insucesso de uma juventude que deveria ser promissora.
Vive-se a ilusão de ter encontrado a resposta para a inconsequência de um processo que sempre prometeu às sociedades a garantia de segurança e tranquilidade do seu futuro - o desenvolvimento integral do indivíduo na escola (como outrora).

Mas o mundo hoje é feio.
Não é melhor nem pior que o de ontem. É feio.
É duro e agreste, como sempre foi. Mas somam-se-lhe o cinismo e a desilusão íntima, a desconfiança em si mesmo.
O que é avassalador.

Por isso o pânico, por isso a tristeza.
Por isso a culpabilização, a descredibilização dos professores aos olhos do vulgo.
Por isso o desencanto dos professores, a sua impotência e revolta perante a injustiça.
Por isso a dúvida secreta e incómoda sobre continuar ou não num jogo fatídico de desgaste e de perda.

Se não se acredita, veja-se!
Veja-se no Reino Unido. (Aqui, aqui, ou aqui.)
Ou na França. (Aqui.)
Ou na Alemanha (Aqui.)
Ou no Canadá (
Aqui.)
Ou na Bélgica. (
Aqui ou aqui.)
Em muita parte deste mundo ocidental moderno... Diferentes agentes, mesmas histórias.

A "nossa novidade" é estarmos a chegar às portas deste problema tão mais tarde quanto chegamos sempre aos abalos sociais que varrem a a Europa.

E como bons carneirinhos, sem tino para nos governarmos, vamos atrás dos outros, pelas alegrias ou pelas tristezas, pelos sucessos (?) ou pelos fracassos, nunca aproveitando o compasso de espera da chegada dessas novidades para as enfrentarmos e debelarmos, preparados.

Leia-se o excerto do texto de um reitor belga de uma faculdade formadora de professores, sobre tudo isto.

"A propos de la pénurie de profs de sciences
Pierre Marage
Doyen de la Faculté des Sciences de l’ULB

On semble avoir enfin pris conscience, ces derniers jours, de la pénurie de professeurs de
sciences dans l’enseignement secondaire.

Les raisons de la pénurie actuelle sont assez évidentes, mais il importe d’en tirer toutes les conséquences.
Le recrutement de professeurs de sciences souffre évidemment de l’image
malheureusement très négative – et injuste ! – du métier d’enseignant : dévalorisation
sociale, crises à répétition, problèmes récurrents de financement, missions de plus en plus
lourdes et complexes face à des adolescents souvent peu motivés par le manque de
perspectives professionnelles, conditions de travail pénibles, violences à l’école,
dispersion des horaires sur plusieurs établissements, nécessité pour les jeunes enseignants
de préparer au pied levé de nombreux cours différents, souvent hors de leur discipline,
instabilité des nominations, etc.

D’autre part, le recrutement d’enseignants souffre de la forte concurrence d’autres
secteurs sur le marché de l’emploi. Les jeunes scientifiques ne sont tout simplement pas
assez nombreux.
"

Estamos a cometer os mesmos erros. Estamos a replicar resultados.
Que dizem os professores? Estão à espera de quê?