26/08/06

Amigos do peito

Estava na calha, aqui vai: os sindicatos no meio disto tudo.

Faço só uma situação histórica prévia.

Estive um ror de anos sem ser sindicalizado.
Sempre achei - como continuo a achar - que a função sindical é indispensável a uma dinâmica social de articulação de deveres e direitos laborais, seu cumprimento, defesa e regulação (pelo menos, assim deveria ser...), mas o boneco dos sindicatos e sindicalistas, e a ideia do seu convívio, sempre me atraiu muito pouco.
Foi preciso chegar a um ano lectivo no Barreiro (!) para me sindicalizar. SPGL, pronto! (Sabia que estava a contribuir mensalmente para alimentar a actividade comunista portuguesa e da CGTP, mas não era nada que a um democrata assustasse, pesados os eventuais benefícios da sindicalização.)
Até ao belo dia em que já em Loures, em certa escola, à mesa de uma reunião sindical por causa do Código do Trabalho Bagão Félix e suas dúvidas, uma delegada sindical alucinada do SPGL tentou contra a minha oposição convencer os presentes de que a "Polivalência do Trabalho" em discussão poria os professores a realizar nas escolas as tarefas dos auxiliares de acção educativa.
Pareceu-me abusar da inteligência e saí.
Como saí do sindicato, explicando as minhas razões.
Passou mais algum tempo sem ser sindicalizado e precisei (é verdade...) de me sindicalizar.
Optei desta feita pelo SDPGL. Um sindicato também dos professores da Grande Lisboa, mas com "democrático" no nome.
(Também sabia que estava a apoiar com a minha quotização a UGT e politicamente o socialismo desta terra, ...mas são coisas da vida).
Até ao belo dia em que já com dez anos de Ensino no lombo este Ministério da Educação faz o que faz e ameaça vir a fazer outro tanto. Vejo-me numa situação, comum a muitos colegas, de prejuízo próprio na mecânica e resultado do concurso de professores de Português e Francês e contacto telefonicamente o meu sindicato.
Amavelmente, uma senhora explica-me por a+b que: o sindicato reconhece razão aos professores que se acham prejudicados no concurso; que o Ministério já informou que indeferirá todos os pedidos de reapreciação de situações de professores; e que o SDPGL não tem intenção de tomar nenhuma posição sobre esta questão, ainda que dê todo o apoio aos professores que o queiram fazer individualmente!
Ao que respondi que isso me parecia uma soberana palhaçada, que era inadmissível a sua cobardia e que tinha intenção de me desvincular dessas pessoas - o que farei já em Setembro.

Portanto, os sindicatos...

Cada vez mais a classe docente está sitiada.
Por um Governo que não resolve, por uma sociedade que já interiorizou o discurso dos direitos do consumidor em relação à escola amalgamando-o com o conceito de aterro sanitário dos problemas básicos de que não pretende escudá-la, por uma postura auto-destrutiva dos próprios professores que nem arriscam na mudança nem se opõem cabalmente a mezinhas obssessivas pinceladas de mudança e solução, sitiada por sindicatos que cada vez mais são também parte do problema.

À portuguesa, estão entupidos de teóricos e ideólogos.
À portuguesa, estão fartos de gente que não trabalha no terreno há anos e anos.
À portuguesa, têm em privado e em público dois discursos divergentes na energia e na determinação.
À portuguesa, nem sempre percebem o que é melhor para eles e para os seus associados, parecendo ainda menos claro que em caso de dúvida optem inequivocamente por servir os segundos.
À portuguesa, insistem em justificar a natureza da sua existência pela sua dimensão representativa, em vez de fazerem o contrário.
À portuguesa, permitem-se ser reféns de interesses (na suposta luta pelos interesses de terceiros).
À portuguesa, não funcionam, não servem, não existem.

Que tal como resumo?

(...E que sindicatos é que me restam por aí?)

2 comentários:

ProfessorGeolouco disse...

O Geolouco deixou de ter existência virtual.
Um abraço para ti.

Joaquim Sobral Gil disse...

Pedro,
infelizmente, este país está cada vez mais "à portuguesa"...
E logo no que de pior existe nessa expressão...
Ou esperamos ou agimos.
Só há uma "piquena" questão: mas agimos como?