04/06/06

Valeu a pena esperar

«Pela primeira vez fez-se um concurso de professores com tanta antecedência do fim do ano escolar. Agora os professores sabem já qual o seu lugar, o que revela profissionalismo».
«O primeiro-ministro desdramatizou, este sábado, o facto de cerca de 60 mil terem ficado sem colocação no concurso dos professores, argumentando que apenas "um terço destes eram professores"». (ver para crer)

1 – Foi a análise rotunda que o nosso Mais-que-Tudo fez da primeira fase do concurso nacional de colocação de professores.
Uma análise que diz da imagem e do tom habituais: vitorioso de si, triunfante das más-línguas e mobilizador para uma causa que é (antes de mais) a sua.

Mas apesar do discurso, a mim não me apanha o Sr. a bordo da piroga rota com que vai dobrar o Cabo!
É certo que o assunto me toca – e muito há por fazer – mas duvido seriamente que o Sr. saiba o que faz.
O que sabe de “Educação” – sim, esta, aqui e agora – quem diz o que o Sr. diz à queima dos microfones?...

Nunca se fez «um concurso de professores com tanta antecedência do fim do ano escolar».
Talvez o Sr. se reporte à fase do concurso em causa… Ou à data do seu resultado.
Não ao conjunto das fases ou ao calendário geral – por força de estar por cumprir! – em rigor, também “concurso”...
Quem assim generaliza, saberá ele do que fala?

Porque se ganhou um mês na “antecedência” da fase, já fomos desenganados que o resultado da fase (essa sim!) essencial, que permite à maioria dos docentes do País conhecer «o seu lugar» – e às escolas organizar-se – está como é tradição prevista para Verão alto, antevéspera de Setembro, início de Ano Lectivo!
O que só é de louvar.

2 – Sobre as colocações, cada um fica na sua.
Por mim, é uma mentira que das «60 mil» almas penduradas mais um (três!) ano (s) sem acesso a casa própria sejam “profs” só «um terço» – robustos por atestado e encartados para a lida.
Já para os sábios da estatística ao serviço da Tutela, a tese será de fiar…

Prefiro então perguntar: dez anos não são serviço, não são patente, penhor, direito a poder chamar enfim “minha” a uma escola?
É que eu sou «60 mil» – e professor até ver!
...Sou nómada de escola em escola, sou tudo menos ímpar no rebaldo educativo.

Como dizia o filósofo: Tudo é opinião...


3 – Mas o mais revelador é o que fica ocultado nas palavras do Sr..

Quando, à primeira vista, o que diz é um nó cego sem ponta por onde se pegue, mais à lupa se entende o brilhantismo da frase.
«Agora os professores sabem já qual o seu lugar, o que revela profissionalismo».

É facto que, desde sempre, para o bem ou para o mal, os profs desta Nação, como bons profissionais, têm salvaguardado ao extremo o edifício escolar. Assumindo o seu lugar, debaixo de vento e chuva, por entre desprezo e escárnio, tendo-o ano após ano mantido de pé e viável, no jogo das circunstâncias.


Acontece que agora, em directo ou diferido – através da mediação amorosa e desvelada da D. Maria de Lurdes – o inquilino transitório do Governo da Nação pretende pôr ordem na casa, que concebe em caos de alma, de ponteiro e palmatória, remetendo os professores para o que é o seu «lugar».

E porque quem pode comanda e quem não pode se agacha, fica a lei enunciada, clara e à vista de todos, para não restarem espertezas.
…Sujeitar-se a esta lei não é a própria essência de um “bom profissional”?

3 comentários:

dia-a-dia disse...

Pois é, caro amigo... Nunca trabalhei na mira dos louros ou na esperança do reconhecimento de qualquer mérito pessoal, mas reduzirem-nos assim à categoria de excedentários manhosos, persona non grata, também custa!... Custa mesmo.

Joaquim Sobral Gil disse...

Estou de querem mandar em mim, na minha carreira.
Estou farto de ser desconsiderado por um Governo que se diz legitimado pelo Povo.
Estou farto de políticos. Governar a "Polis" não é o mesmo que mandar na criada lá de casa, como se fazia há 40 anos.
Estou farto de a minha profissão ser cada vez mais desprezada socialmente.
Estou farto de ser desvalorizado: ninguém se lembra que estamos a formar gerações. Nem Sua Excelência a Senhora Ministra, nem Sua Eminência o Senhor Primeiro-Ministro devem ter andado na escola; nada devem aos seus professores com certeza; certamente nasceram ensinados (e muito mal, pelo que se tem visto...).
Estou farto de ver a autoridade da Escola estar a descrescer; nem sequer os Sindicatos estão muito preocupados com isso, quanto mais o ME...
Estou farto de notícias que revelam a brutalidade com que são tratados colegas meus.
Estou farto de os pais só se lembrarem dos aproveitamento dos filhos na última semana de aulas do 3º período.
Estou farto da frase:"Se o aluno passa é muito inteligente; se reprova, o professor não sabe ensinar".
Se os alunos que nos entram pelas salas adentro são o reflexo do que vai lá fora, prefiro não saber do mundo, dar o meu melhor, passar de esguelha pelo planeta e cultivar o meu jardim secreto.
E não me chamem misógino, por favor...

Anónimo disse...

best regards, nice info » » »