15/03/07

Cada vez mais na mesma


O sr. Ministro da Administração Interna "não reconhece qualquer legitimidade ao relatório do Departamento de Estado norte-americano que aponta críticas a Portugal sobre os direitos humanos".

Assim.
Curto e grosso.
Ah pois é!...

Eu ainda pensava, ingénuo, que esta coisa do "não reconheço legitimidade" era um artifício de linguagem parlamentar. Uma entretenga daquelas do "ah e tal... e defesa da honra", para encanar a perna à rã...
Mas venho afinal a saber que no mundo real é alavanca de pensamento e engrenagem de faladura.

Ora o sr. dr. António Costa "não reconhece legitimidades". Restaria saber porquê.

É que se o problema do sr. Ministro é a proveniência do documento que referencia Portugal, fazia melhor em estar calado.
Os Estados Unidos da América, bandidos, cometem atropelos aos direitos humanos? Sim, dizem que sim. E ainda por cima com provas!
Mas por cometerem esses atropelos deixam de ter "legitimidade" para falar sobre o assunto? E é o sr. Ministro que vai decretar quem tem essa "legitimidade" ou não?
Só mesmo na sua cabeça!

Desde há anos e anos que os Reports on Human Rights Practices do Departamento de Estado americano são produzidos e publicitados, incidindo sobre quase 200 países e a forma como aí andam os direitos humanos.
Produzidos pelo de que melhor há no mundo de observatórios multidisciplinares e publicitados como forma de propaganda - claro! - através da qual o governo americano tenta arrolhar as vozes oficiais mundiais sobre as suas próprias más práticas, confrontam o planeta com o facto de supostamente não haver quem possa atirar a primeira pedra à América neste domínio.

Lógica cowboyesca que exactamente o sr. Ministro da Administração Interna compra e cavalga!

Se conseguisse ser mais sério, falaria de outro modo.
Rebateria os dados do relatório americano, descredibilizá-los-ia na sua eventual falta de verdade ou rigor, pô-los-ia na balança com as falhas americanas e responsabilizaria os seus autores por nunca se reportarem (uma curiosidade destes habituais Reports) aos próprios Estados Unidos e (com um pouco de inteligência) faria brilhar o que este fenomenal "Governo" tem feito (??) para salvaguardar os direitos humanos entre portas.

Mas não. "Não reconhece qualquer legitimidade ao relatório." "Os Estados Unidos têm muito que se preocupar com o que se passa no seu país em termos de direitos humanos".
No que se apouca a um infeliz miúdo birrento que no argumento do "quem diz é quem é" encontra o aconchego emocional.

Mas está com azar.
Porque quando cai na asneira de dizer que se ainda forem críticas da Amnistia Internacional ou outra quejanda, "Portugal aceita a avaliação" - assim nem pó, porque "nenhum país tem legitimidade para vir cá avaliar o que é que acontece", muito menos os EUA - dá um tiro nos dois pés.

Num alegre debate sobre o assunto na Sic Notícias - daqueles em que o populacho participa - uma representante da AI disse com todas as letras que a Amnistia reconhece a existência de todos os pecadilhos atribuídos no Report a Portugal (que por acaso já nem são de hoje) !!
A saber: abusos das forças de segurança, más condições das cadeias, recurso excessivo da prisão preventiva e tráfico de mão-de-obra estrangeira e de mulheres.

Portanto, o que é que o sr. Ministro quer fazer? Sacudir a água do capote? Tapar o sol com a peneira? Cegar os lorpas?
Lesse as palavras de Condoleezza Rice na apresentação do Report de 2006 e pusesse a mão na consciência.

"Liberty and human rights require state institutions that function transparently and accountably, a vibrant civil society, an independent judiciary and legislature, a free media and security forces that can uphold the rule of law."

Qual destes tópicos não dava sozinho um blog sobre a tristeza deste País?

Como curiosidade, a Amnistia Internacional...
Que em vez de se pronunciar sobre o Reports on Human Rights Practices sem ser obrigada - o que vem dos EUA tem mesmo peçonha para muita gente! - assobia para o lado e o ignora como se de uma papeleta cujo conteúdo e relevância não lhe tocasse de perto.

Até ao santo dia de hoje, no site da dita, nem uma notícia, nem uma referência, nem uma linkadela ao documento.


Apesar do site apelar obsessivamente - e bem - ao fim da violência sobre as mulheres, tão denunciada pelo Department of State.

A única menção aos EUA foi mesmo a de um médico do exército americano que se recusou a ir para o Iraque e que por isso enfrenta agora a justiça militar do seu país.
"Médico do exército", "recusou-se a ir para o Iraque", "justiça militar".

Grandes causas.
... Causas selectivas.

Estamos cada vez mais na mesma.

1 comentário:

LFM disse...

Confesso que me deu algum gozo, ver o nosso Ministro a dizer que não reconhece qualquer legitimidade ao relatório do Departamento de Estado norte-americano.
Mas não te tiro 1% de razão naquilo que escreveste.