06/11/06

Quem tem um Sampaio não precisa de um Nostradamus

Santana Lopes. O nome diz tudo.

De Encoberto
a descoberto, de aspirante a desesperante, da promessa à pressa, a sua história contou-se em poucos meses, sob o signo da fugacidade e da incompletude.

O que não impede que o homem não tenha guardado muitas e boas razões de queixa do tratamento que teve às mãos dos bem-pensantes que muito bem lhe fizeram a cama em que o lorpa se deitou.

Mais que razão tem ele para o patético número da birra do morto em que chama "batoteiro" ao engº Sócrates, invejando o conforto político de que goza o PM socialista, um conforto tão laboratorialmente manipulado como o rosário das agruras que lhe foram acontecendo.

DÚVIDAS?...

Os de boa memória lembrar-se-ão do comunicado ao País do então Presidente Jorge Sampaio.
Tarde e a más horas (tanto foi o tempo que lhe levou a esgalhar um discurso justificativo à Nação), lá deu aos portugueses a esmola de u
ma explicação da dissolução de uma Assembleia da República democraticamente eleita e em regulares funções, contando com uma maioria estável constituída como suporte a um Governo empossado meses antes pelo dito.

Mas não sei se toda a gente terá bem presentes as suas palavras...
É que são muito engraçadas de ouvir, com um ouvido em Dezembro de 2004... e outro em Novembro de 2006!

Dizia o dr. Sampaio, então Presidente:

"Quando, no início do Verão passado, [...] optei, após cuidadosa ponderação, por não dissolver a Assembleia da República e nomear o dr. Pedro Santana Lopes Primeiro-Ministro, [...] decidi nesse sentido porque a maioria parlamentar me garantiu poder gerar um novo Governo estável, consistente e credível, que cumprisse o programa apresentado para a legislatura e fosse capaz de merecer a confiança do país e de mobilizar os portugueses para vencer os desafios inadiáveis que enfrentamos."
[...]
No discurso que fiz no momento em que empossei o Governo, reafirmei [que] : 'A conjuntura nacional, bem como o delicado contexto internacional, impõem ao Governo uma particular lucidez nas políticas e um rigor na gestão governativa, tal como aconselham a realizar obra consistente e estruturante na solução dos problemas'.
[...]
Entretanto, [...] depois de lhe ter assegurado todas as condições necessárias para o desempenho da sua missão, o país assistiu a uma série de episódios que ensombrou decisivamente a credibilidade do Governo e a sua capacidade para enfrentar a crise que o país vive. Refiro-me a sucessivos incidentes e declarações, contradições e descoordenações que contribuíram para o desprestígio do Governo, dos seus membros e das instituições, em geral. Dispenso-me de os mencionar um a um, pois são do conhecimento do país. A sucessão negativa desses acontecimentos [...] criou uma grave crise [...] na relação de confiança entre o Estado e a sociedade [e do] prestígio das instituições democráticas.
[...]
Não fiquei surdo às vozes que defendem que o Orçamento para 2005 não responde satisfatoriamente às exigências de efectiva consolidação orçamental, condição necessária para se prosseguir o esforço de redução do défice público que os nossos compromissos internacionais e as necessidades do nosso desenvolvimento futuro tornaram indispensável. Entendi, no entanto, e sem que se possa ver nisso contradição, que era preferível dispormos de um Orçamento aprovado que assegurasse, desde o início do ano, o normal funcionamento da Administração Pública [...]."

Hoje já não há Sampaio, já não há Santana, mas estas palavras continuam frescas do dia...

Apesar de, como em tudo na vida, até um visionário como Sampaio poder errar nas suas previsões.
Afinal, dizia ele aos portugueses a acabar a tal comunicação ao País:

"Vem aí, espero, um tempo de debate, de confronto de ideias, de elevação e exigência democráticas, [...] serenidade, tolerância para com as opiniões diversas [...]."

...Eu também ainda estou à espera.

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